“Reestruturação e privatização do setor energético” é tema do primeiro debate do 5º Congresso do Sinergia CUT

Objetivo foi refletir sobre os impactos para o desenvolvimento e a soberania nacional com a entrega de empresas estratégicas em tempos de golpe

Começou na tarde desta quinta-feira (30), em Praia Grande, cidade do litoral sul paulista, o 5º Congresso do Sinergia CUT que reúne cerca de 150 delegados e delegadas eleitos em assembleias e encontros regionais realizados em todo o estado de São Paulo. O Congresso acontece vinte anos depois da criação da entidade formada por eletricitários e gasistas e que é referência de liberdade e autonomia sindical na prática.

O objetivo do encontro, que tem como mote “Resistência e Ousadia”, é definir estratégias para o enfrentamento do desmonte do Estado retomado pelo governo ilegítimo de Michel Temer (PMDB) e o fortalecimento da organização sindical diante dos vários golpes de retirada de direitos históricos, atualizando as estratégias de luta principalmente pela anulação da antirreforma trabalhista, em vigor desde o último dia 11, e pela pressão contra a proposta de “reforma” da Previdência que tramita no Congresso Nacional.

A mesa de abertura pautou a “Reestruturação e Privatização do Setor Energético – Impactos para o Desenvolvimento e a Soberania Nacional”, tendo como convidados Paulo de Tarso, dirigente da CNU (Confederação Nacional dos Urbanitários), e de Ubiratã de Souza Dias, da coordenação do MAB (Movimento dos Atingidos por Barragem), com mediação de Glauco Sanches e Magali Marques.

Em tempos de golpe, esse debate é fundamental já que a categoria também enfrenta as tentativas de retomada da privatização das últimas geradoras da Cesp pelo governo de Geraldo Alckmin (PSDB) e de todo o Sistema Eletrobras pelo governo ilegítimo, que ataca e desmonta também o setor elétrico nacional, ameaçando um setor estratégico ao desenvolvimento econômico e social do país. “A retomada da privataria é mais um ataque ao patrimônio público e à soberania nacional, momento que exige muita luta e resistência, além de reflexão para apontar soluções que garantam dignidade profissional e qualidade de vida para os trabalhadores e trabalhadoras”, alertam os dirigentes do Sinergia CUT.

“Unidade na luta para retomar um projeto de país”

Ubiratã Dias começou sua explanação exatamente pelos ataques ao setor energético brasileiro. Para ele, a retomada da privatização é resultado da crise internacional do capitalismo. “Uma crise que não começou agora e se arrasta há anos, através de reestruturações e reformas e, principalmente, com o caráter entreguista do patrimônio público, o aumento da exploração do trabalho, a privatização que transfere para o capital privado internacional o que é do povo brasileiro. Nesse cenário, o setor elétrico é alvo da privatização de todas as empresas e sistemas estatais”, pontuou.

“Não se leva em conta que isso é roubo, pois a sociedade já pagou por tudo isso e os trabalhadores é que construíram esse patrimônio. Para o governo golpista, com apoio da grande mídia, a onda da vez é a privatização da Eletrobras. Já o governo de São Paulo quer entregar o que restou da Cesp, mas se negou a comparecer à audiência pública de ontem para debater. Entregar essas riquezas para o capital transnacional é um assalto a cada cidadão que ainda vai ter que pagar mais cara a conta de luz pela lógica do lucro”, completou.

Ubiratã também abordou as consequências da privatização: “Tudo agora virou massa para a entrega a preço de banana. Dizem que vão arrecadar R$ 20 bilhões com a Eletrobras, sendo que só Belo Monte custou R$ 30 bilhões. Sem falar que não existe capitalismo e desenvolvimento modernos sem energia elétrica. Querem tirar das nossas mãos esse patrimônio e vamos ficar reféns das transnacionais e dos capitalistas do setor financeiro. Nossas contas de luz já são das mais caras do mundo e com a privatização tendem a explodir. Precisamos debater tudo isso com a sociedade. Já para os trabalhadores o que vem é mais exploração, acúmulo de jornada, baixos salários e precarização, e, para nós, atingidos por barragens, vem o aumento das violações e do impacto ambiental. Basta lembrar que permitiram que a barragem de Mariana estourasse, provocando o maior crime ambiental da história, sem punição e sem indenização de danos. Isso é o resultado da ganância do lucro”.

Para ele, é urgente a unidade da luta da classe trabalhadora: “Precisamos voltar a discutir o Brasil com unidade na luta em torno de um projeto de país. O MAB, a Plataforma Operária e Camponesa da Energia, junto com petroleiros, eletricitários, gasistas e movimentos sociais para propor soluções para a energia. E levar esse debate para toda a sociedade”.

“Organização sindical para a luta e a resistência”

O dirigente da CNU, Paulo de Tarso, abordou o momento de crise política, econômica e social. “Não vivemos plena democracia, mas passamos pela ditadura militar, suas torturas e arbitrariedades, e sobrevivemos. Portanto, por mais dificuldades que estejamos enfrentando atualmente, isso faz parte do jogo do capitalismo, que faz com que o capital predomine aos interesses da sociedade. É um momento de convulsão antissocial, e nunca se viu tanta maldade em tão pouco tempo de quem bancou o golpe com capital estrangeiro e sem nenhum compromisso com a sociedade. O objetivo dos golpistas é retirar tudo o que o povo vinha conquistando, a reforma trabalhista veio para beneficiar empresários, reduzir conquistas dos trabalhadores, enfraquecer os sindicatos e a Justiça do Trabalho”, explanou.

O sindicalista afirmou ainda que, nesses tempos de golpe, “é preciso quebrar a coluna central da democracia que é o movimento sindical, ator principal na eleição e reeleição de Lula e do projeto democrático, ainda que tenha mantido sua independência. E muito foi feito pelos projetos sociais, como a valorização do salário mínimo e os programas de distribuição de renda, tirando milhões de brasileiros da linha da miséria. A sociedade só vai perceber quando for atingida, por exemplo, com a alta do custo de vida. Existe um timing nesse processo. Temos que levar esse discurso para a sociedade, inclusive a reeducação dos trabalhadores, lembrando aos novos de antigas conquistas vendidas como se fossem benefícios das empresas”.

Em relação à retomada da privatização, Tarso lembrou que Coelba voltou a primarizar alguns setores e, depois de muitas mortes, precarização do trabalho e baixa qualidade dos serviços, está contratando 1100 trabalhadores novos. “Já estão repensando tudo isso. Hoje temos a quinta tarifa mais cara do mundo, consequência da privatização dos tempos de FHC, porque essa é a lógica do capital privado, mesmo em se considerando que a energia é estratégica e essencial e precisa ser universalizada. Só pensam em aumentar a tarifa e ganhar em cima da população, que não vai poder pagar”, disse.

Destacou ainda que “vendem patrimônio público a preço de banana e levam de brinde as águas e seu uso múltiplo, incluindo uso doméstico, pesca, agricultura, navegação, transposição. Podemos ter uma guerra por conta da água, produto mais valioso do mundo. A única saída é rediscutir a unidade dos trabalhadores e a organização das entidades do nosso ramo na CUT para garantir o sucesso da nossa luta e ir para o enfrentamento e a resistência, inclusive na greve do dia 5 de dezembro. Além disso, conversar com a sociedade para denunciar os deputados que traem o voto do povo, denunciar a entrega de patrimônio público e resgatar a lei que diz que para vender as empresas é preciso antes consultar os brasileiros através de um referendo”.