‘Imprensa brasileira é pior que a Inquisição’

10 novembro 10:59 2005

A opinião é da professora e filósofa Marilena Chauí, titular de filosofia na USP, respeitada e reconhecida pela postura ética e pela firmeza de princípios

A direita e as forças conservadoras tentam se rearticular contra os avanços dos movimentos sociais e dos trabalhadores, com total apoio dos meios de comunicação, que usam métodos piores que os da Inquisição. A opinião é da professora e filósofa Marilena Chauí e foi reafirmada durante debate sobre Ética na Política, na noite da última sexta-feira (04), dentro da programação do 5° Congresso dos Metalúrgicos do ABC.

Chauí, que é professora titular de filosofia na Universidade de São Paulo (USP) e reconhecida também pela postura ética e pela firmeza de princípios, afirmou que os meios de comunicação usam métodos muito piores que os utilizados pela Santa Inquisição durante a Idade Média. Ela contou que, na época, quando as pessoas eram acusadas de não seguir o determinado pela Igreja Católica, eram perseguidas, presas, torturadas e até mortas. ‘Isto fazia parte de um processo de intimidação para manter o controle da Igreja sobre a sociedade. Desta forma, obrigavam os perseguidos a voltar atrás em suas opiniões e a não contestar o poder’, prosseguiu. ‘Caso contrário, podiam morrer’.
Mas a professora alertou sobre um detalhe que faz toda a diferença na comparação com o momento atual – os recursos usados durante a Inquisição eram conhecidos por todos: ‘Apesar de terríveis, pois terminavam inclusive com pessoas queimadas ainda vivas na fogueira, os métodos da Inquisição eram sabidos. Isso não acontece com os meios de comunicação atualmente’.

Ela explicou que, da mesma forma que a Inquisição, os meios de comunicação não se ocupam apenas com a destruição das pessoas ou instituições. ‘Sempre que os donos de tevês, jornais e outros se sentem ameaçados por algum governo ou mudança na ordem política, ou quando os interesses econômicos desses mesmos proprietários ou de quem representam correm riscos, eles partem para a acusação sem provas, ninguém sabe o que ocorre’, acusou a filósofa.

‘A mídia não se preocupa em provar as acusações que faz. Cria a opinião que interessa a ela na sociedade e, a partir daí, realiza todo um trabalho para provar, de qualquer maneira,  que o que diz é verdade’, denunciou a professora. Com o agravante de que hoje os computadores os computadores multiplicam de forma incrível a velocidade das informações fabricadas que, em questão de segundos, percorrem todo o mundo. ‘A partir daí, a verdade dos meios de comunicação passa a ser a verdade para todos e alcançam um poder maior do que o exercido pela Inquisição’, afirmou.

Só reforma política pode resolver

Para a filósofa, única possibilidade de o País enfrentar a atual crise política e outras que possam aparecer é por meio de uma reforma política republicana e democrática.

‘As CPIs não resolvem os problemas políticos porque visam os indivíduos e não o sistema nem as causas. É preciso passar da crise moralizante da corrupção à crítica cívica da instituição’, prosseguiu. Para Chaui, o sistema político provoca problemas de governo aos partidos que vencem as eleições mas não conseguem maioria parlamentar: ‘Para resolver essa dificuldade corre-se o risco passar da negociação para a negociata’.

Para concluir, a professora fez uma constatação e deu um alerta: ‘Os seres humanos são movidos por paixões como ódio, cobiça e inveja, mas as mudanças não falam disso. E afastar as paixões da política é impossível. Por isso, temos que fazer reformas que obriguem o administrador a seguir a moralidade pública se quisermos fazer política de forma decente’.

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