Brasileiro de baixa renda gasta mais com energia que americano e britânico

08 março 18:49 2006


Os brasileiros de classe mais baixa estão usando 15,57% de sua renda média para quitar as contas de energia, incluindo gás liquefeito de petróleo e eletricidade, enquanto os americanos usam 5,2% e os ingleses, 4,1%. A conclusão é do relatório ‘Energia e Pobreza – América Latina e Caribe’ apresentado nesta sexta-feira, 3 de março, durante o Fórum Regional do Conselho Mundial de Energia, realizado no Rio de Janeiro. A pesquisa foi realizada nas cidades de Buenos Aires, na Argentina; Caracas, na Venezuela; e Rio de Janeiro, entre 2002 e 2005. Segundo Norberto Medeiros, presidente do comitê brasileiro do CME, o custo da energia no país não é compatível com a renda dos mais pobres, apesar de sê-lo a renda per capita nacional.


‘O problema no país é a baixa renda da população aliada a alta carga tributária cobrada na tarifa de energia, em média de 45%’, explicou. Para efeito de comparação, os portenhos gastam 7,6% da renda média com energia e os moradores de Caracas, 3,3%, de acordo com o estudo. Na Venezuela, a energia é fortemente subsidiada e não há cobrança de impostos nas tarifas sociais, informou André Matas, representante venezuelano. Mesmo assim, apenas 40% do subsídio venezuelano chega às famílias de baixa renda, indo o restante para as famílias de renda mais alta. Na Argentina, a carga tributária fica em 35% do custo da energia e as contas são pagas bimestralmente.


A parte brasileira do estudo foi realizado na favela do Caju, na Zona Norte do Rio, onde foram entrevistados jovens, empresários e líderes comunitários. O relatório constatou que a perda comercial da Light (RJ) na comunidade chega a 40%, superior a média de 25% da distribuidora em toda a sua área de concessão. Medeiros apontou que os entrevistados se mostraram dispostos a pagar pela energia elétrica desde que os valores sejam adequados a sua renda. Sem entrar em detalhes, o executivo sugeriu que a energia velha, já amortizada, fosse usada, preferencialmente, para fornecimento ao público de baixa renda.


Usando preços de 2002, o relatório constatou que o preço da eletricidade para as famílias de baixa renda no Rio de Janeiro é superior ao das duas outras cidades. Na cidade brasileira, o kWh estava avaliado em 8,29 centavos de dólar; enquanto em Buenos Aires, saía a 5,88 centavos; e em Caracas, 1,86 centavo de dólar. Na Venezuela, o maior problema das empresas de eletricidade é o roubo de materiais, como cabos. Já no Brasil e na Argentina, o furto de energia é a principal dor-de-cabeça das concessionárias.


Norberto Medeiros lembrou que o maior problema para as populações desses países não é o acesso a energia elétrica na área urbana, mas como pagar pelo consumo. Uma das propostas feitas foi redirecionar os subsídios para programas educacionais e de renda como o Bolsa Família, para que eles cheguem a quem realmente precisa. Ele afirmou que 1,6 bilhão de pessoas em todo o mundo não têm acesso a energia elétrica, o equivalente a um terço da população mundial. (Alexandre Canazio)

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