Classe média encolhe e empobrece no país

08 março 19:00 2006

A classe média brasileira diminuiu, empobreceu e mudou padrão de gastos, segundo estudo que acaba de ser concluído e publicado em livro pelo economista Marcio Pochmann e outros três pesquisadores brasileiros.


O auge da classe média brasileira foi entre 1970, período do chamado milagre econômico, e 1980. Em 1980, participava com 31,7% da PEA (População Economicamente Ativa) ocupada urbana, como reflexo do processo de industrialização do país. Em 2000, esse percentual caiu para 27,1%. A expectativa dos economistas é que esse número, se não for menor, no máximo se mantém hoje.


Nos cálculos de Pochmann, cerca de 10 milhões de pessoas deixaram de pertencer à classe média em 20 anos, considerando a ocupação. Pelo menos 70% dessas pessoas passaram a ter um padrão de vida pior. ‘A classe média foi fortemente atingida com a onda neoliberal de promoção de abertura comercial, financeira, tecnológica e produtiva do país’, afirma o economista.


A renda da classe média-média (com ocupações técnicas, postos-chave nos setores público e privado) caiu de 32,2%, em 1980, para 23,1%, em 2000, sobre a renda total da classe média assalariada urbana. A renda da classe média-alta (executivos, gerentes, administradores) também diminuiu: de 23,3% para 22,8%, no período.


A renda da classe média-baixa (professores, lojistas) já ganhou participação: subiu de 44,5% para 54,1%, no período. ‘Esses dados mostram claramente o empobrecimento da classe média nos últimos anos’, diz Pochmann. Em valores de novembro de 2005, o estudo considera classe média a família que tem renda mensal entre R$ 1.556,30 (piso) e R$ 17.351,56 (teto).


No livro ‘Classe Média – Desenvolvimento e Crise’, que acaba de ser lançado pela editora Cortez, Pochmann e equipe de economistas mostram que a classe média brasileira, formada por 15,4 milhões de famílias (31,7% das famílias existentes no país), também mudou o padrão de consumo.


Mais habitação


Em 1987, os itens alimentação e vestuário, por exemplo, tinham participação de 24,5% e 11%, respectivamente, sobre as despesas do mês. Em 2003, caíram para 15,9% e 5%, respectivamente.


A participação dos itens habitação, transporte e educação subiu de 17,6% para 29,5%, de 8,7% para 16,9% e de 2,2% para 3,6%, respectivamente, sobre as despesas do mês no período.


‘Há mais opções hoje para a classe média do que havia em 1987. Os carros, por exemplo, que estão incluídos no item transporte, estão mais equipados, mais caros, assim como os aluguéis e a manutenção do lar [reformas], incluídos no item habitação’, afirma Ricardo Amorim, um dos economistas que participaram do estudo realizado para o livro.


Waldir Quadros, pesquisador do Cesit (Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho), da Unicamp, que também faz estudo sobre o tema, afirma que a classe média hoje está refém dos serviços. Gasta cada vez mais com telefone, segurança, escola.
‘O que o Estado não proporciona a classe média tem de bancar. Por isso, manter o padrão de vida está cada vez mais difícil.’


O livro mostra ainda que a classe média também mudou a forma de obter renda.
Em 1980, 64,6% da classe média era assalariada em relação à PEA urbana. Esse percentual caiu para 55,8% em 2000.


No mesmo período, aumentou a participação da classe média proprietária sobre a PEA urbana, de 35,4% para 44,2%. ‘A classe média hoje é mais heterogênea. Nos anos 80, estava mais próxima do trabalhador operário e era menos conservadora. Hoje, é mais proprietária (de um bar, de uma padaria ou de uma consultoria)’, afirma Pochmann.


O estudo também constatou que 57,2% das famílias de classe média estão localizadas na região Sudeste. No Estado de São Paulo, 46,9% das famílias existentes são da classe média. No Distrito Federal, esse percentual chega a 50,2%. O menor percentual entre os Estados brasileiros é no Maranhão, de 11,7%. (Fátima Fernandes)

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