Greve geral e protestos reúnem 100 mil na França

04 abril 10:57 2006

Pelo menos 100 mil pessoas tomaram hoje as ruas da França em um novo dia de protestos contra o chamado Contrato do Primeiro Emprego (CPE), destinado aos jovens e que é alvo de negociações entre sindicatos e governo. A greve atinge o transporte aéreo, ferroviário e rodoviário.


Os problemas decorrentes da greve foram muito menores que os da semana passada. Sindicatos do setor ferroviário garantiram que 80% dos trens estavam funcionando e que os metrôs urbanos quase não haviam sido afetados. O tráfego de aviões, por outro lado, foi prejudicado. Autoridades do setor estimaram que cerca de um terço dos vôos tenha sido cancelado e que outros vôos registrariam atrasos de até 90 minutos.


Em inúmeras cidades francesas, a participação era igual ou superior à registrada na mobilização anterior, em 28 de março, quando entre um e três milhões de manifestantes saíram às ruas, o que não acontecia há 20 anos no país.


A prefeitura de Paris colocou 4 mil policiais, alguns deles à paisana, nas ruas a fim de evitar os episódios violentos registrados em 28 de março, quando as forças de segurança usaram bombas de gás lacrimogêneo contra centenas de jovens armados com garrafas e coquetéis molotov. Três centenas de câmeras de segurança da polícia vigiavam as ruas de Paris em busca de sinais de distúrbio. Manifestantes que chegavam para participar do principal protesto marcado para acontecer na cidade disseram ter sido revistados por agentes de segurança nas estações de trem.


Bernard Thibault, líder do principal sindicato francês, a CGT, declarou desejar que as manifestações previstas para o longo desta terça-feira sejam um ‘golpe fatal’ para o CPE.


Em Paris, está prevista para o início da tarde a manifestação de milhares de pessoas na Praça da República. A Torre Eiffel está fechada pela segunda vez em uma semana.


A greve de 24 horas atingiu o refino de petróleo e a produção de eletricidade no país, mas não chegou a afetar os suprimentos, disseram sindicatos e empresas. A paralisação também cortou cerca de 3% da capacidade de geração de energia do país.


Negociações ‘sem limites’
As manifestações têm ocorrido há dois meses contra a nova lei de contrato para os jovens. Na sexta-feira, o presidente Jacques Chirac assinou a lei mesmo assim, dizendo que a França deve acompanhar a economia mundial. Ele ofereceu modificações na regulamentação, mas estudantes e sindicatos rejeitaram.


O governo francês, atualmente controlado pelos conservadores, não chegou a revogar a lei, mas, em vista de índices de popularidade decrescentes e de desavenças internas sobre como lidar com a crise, deu sinais de que poderia oferecer mais concessões em eventuais negociações com os sindicatos.


‘Podemos estar à beira de uma grande vitória’, afirmou Olivier Besancenot, um esquerdista crítico do Contrato do Primeiro Emprego (CPE), que, segundo o governo, encorajaria as empresas a contratar trabalhadores jovens ao permitir que eles fossem demitidos sem justa causa nos primeiros dois anos de contrato. ‘Mas o CPE ainda não está morto’, disse ao canal de TV France 2.


‘Estaremos prontos a partir de amanhã para receber os sindicatos e para ouvi-los. Não haverá limites para as negociações’, prometeu Bernard Accoyer, líder no Parlamento do partido União para um Movimento Popular (UMP), de Chirac.


Questionado por uma rádio francesa sobre se a oferta de negociações era apenas uma manobra para esvaziar as manifestações ou se havia a possibilidade real de o CPE ser substituído, ele respondeu: ‘Não vamos falar sobre o CPE porque desejamos falar sobre o futuro.’


Os sindicatos prometeram resistir às ofertas de negociação enquanto o governo não aceitar o fim do CPE e não der início a novas discussões sobre formas de combater o desemprego entre os jovens franceses, atualmente em torno de 22%. As declarações de Chirac na sexta-feira, quando prometeu que assinaria o projeto de lei sobre o CPE, mas defendeu reformas nele, foram interpretadas como uma manobra para que o primeiro-ministro Dominique de Villepin, defensor do contrato de trabalho e fiel aliado do presidente, não renunciasse.


Mas a medida pode enfraquecer Villepin e fortalecer Nicolas Sarkozy, o ministro do Interior e chefe do UMP que agora desempenhará um papel central em eventuais reformas ou negociações sobre o CPE. Sarkozy, cujas relações com Chirac estão abaladas, alimenta o projeto de concorrer à Presidência do país em 2007 pela ala conservadora, assim como o faz Villepin.

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