‘Nada pode ser tão ruim que não possa piorar’

26 maio 18:31 2006

Sexta-feira, 26 de maio. No início do expediente e na abertura da reunião de negociação da Campanha Salarial 2006, a direção da Elektro comunica aos trabalhadores que a Prisma, controladora da distribuidora, está sendo vendida para um fundo de investimento inglês, o Ashmore Energy Internacional Limited, que já adquiriu 49% das ações e aguarda os trâmites legais necessários para comprar o restante, o que no Brasil inclui a aprovação da Aneel. 


Na mesa de negociação com o Sinergia CUT, a empresa não conseguiu disfarçar que a nova situação certamente criará um clima desfavorável para o processo negocial. Para o Sindicato, um lamentável revés no exato momento em que a Elektro vinha de uma seqüência de resultados financeiros altamente positivos, inclusive com distribuição de milionários dividendos aos acionistas graças ao esforço e empenho dos trabalhadores, que agora esperavam um ambiente altamente favorável à negociação coletiva.


O Sinergia CUT lembrou então que, em 2001, depois da divulgação dos escândalos da Enron que apontavam para a certeza de venda da Elektro, sindicato e empresa negociaram o termo aditivo da PLR Especial de Venda. Mas, desde agosto de 2004, quando ocorreu a transferência dos ativos da Enron para a Prisma – depois de autorização da Corte Americana de Falências – o Sindicato precisou recorrer à Justiça para garantir o cumprimento do acordo com o devido pagamento da segunda parcela aos trabalhadores.  Os representantes da empresa afirmaram que vão se explicar na Justiça e que, no caso da concretização da nova venda, pagará a parcela devida da PLR Especial.


Depois disso, a empresa se limitou a apresentar uma proposta ‘para inglês ver’, limitada a um reajuste pelo IPC da Fipe – estimado em 2,46% – sobre salários, benefícios econômicos e valor da PLR 2005. Só isso. A proposta foi imediatamente rejeitada pelo Sinergia CUT que insistiu na discussão de toda a Pauta de Reivindicações dos trabalhadores e exigiu que as negociações não fossem contaminadas pelas incertezas geradas pela nova venda da Elektro.


Ainda assim, a empresa afirmou ser essa a proposta limite para este ano e que sequer marcaria nova rodada de negociação. Só depois de muita insistência do Sinergia CUT, e de uma rápida reunião dos representantes da empresa, nova reunião foi marcada para o próximo dia 5 de junho.


Para o Sinergia CUT ficou a impressão de que os negociadores da Elektro estão totalmente perdidos com o novo cenário, o que pode ser traduzido por outro conhecido ditado – tão inglês quanto os novos controladores – adaptado a esses novos tempos: ‘God saves the workers’. Que em bom português quer dizer ‘Deus salve os trabalhadores’. 


Reproduzimos abaixo matéria assinada pelos jornalistas Chris Martinez, Raquel Balarin e Leila Coimbra e publicada pelo Valor Online, nesta sexta 26:


Fundo inglês compra a Prisma Energy


‘O fundo Ashmore Energy International Limited, de Londres, fechou ontem acordo para adquirir a Prisma Energy International, holding que reúne os ativos internacionais da Enron, inclusive a distribuidora de energia elétrica Elektro no Brasil e gasodutos na Bolívia. Segundo o Valor apurou, os bancos Deutsche e ABN AMRO financiarão US$ 1 bilhão da aquisição, que poderá chegar a US$ 2,9 bilhões pela totalidade dos ativos.


A negociação fechada ontem prevê que a Ashmore compre num primeiro momento 49% da Prisma, incluindo uma participação inferior a 25% das ações com direito a voto, por questões regulatórias. A aquisição do restante das ações da Prisma pela Ashmore somente ocorrerá após serem obtidos os consentimentos e aprovações necessários, incluindo a aprovação da Agência Nacional de Energia Elétrica, segundo fato relevante enviado ontem à noite à Comissão de Valores Mobiliários.


A Prisma era o último ativo da Enron, empresa americana que pediu concordata após a descoberta de fraudes contábeis e que vinha sendo administrada por seus credores. Ontem, os dirigentes da Enron foram condenados pela Justiça americana. O Ashmore, que hoje tem ativos de US$ 20 bilhões, foi fundando em 1992 com apenas US$ 18 milhões em ativos na época. O fundo é especializado na aplicação de recursos em mercados emergentes, mas ainda não tinha negócios no Brasil.


A venda da Prisma foi coordenada pela empresa de consultoria Blackstone, que no Brasil tem um acordo operacional com o banco Pátria e atraiu, além de outras companhias de energia, administradores de fundos como o Carlyle, que atua na área de private equity, e o Fortress Investment Group. Segundo fonte que acompanhou as negociações, a concorrência entre grupos financeiros mostra o interesse que os mercados emergentes têm despertado entre os administradores de recursos, apesar da recente turbulência nesses países.


Na Elektro, a venda deve indicar mudanças, segundo um especialista internacional consultado pelo Valor. ‘A empresa havia anunciado uma série de investimentos. Mas um grupo financeiro como o Ashmore não tem interesse em fazer novos investimentos e sim em dar retorno aos clientes’, afirmou.


Além disso, a venda da Prisma contraria os interesses de um grupo de executivos da Elektro no Brasil, que queria desmembrar a empresa brasileira e realizar uma emissão de ações em bolsa. Esse grupo é liderado pelo atual presidente da distribuidora no Brasil, Orlando González. Cubano naturalizado americano, González está no comando da Elektro desde sua privatização. Com a reestruturação dos ativos, o executivo pretendia valorizar ainda mais a Elektro e garantir sua permanência no comando da Prisma no Brasil.


A Elektro representa 60% dos ativos da Prisma. A concessionária foi arrematada em leilão de privatização pela Enron em julho de 1998 por US$ 1,2 bilhão. A empresa tem 1,9 milhão de clientes e atua em 223 municípios do Estado de São Paulo e cinco do Mato Grosso do Sul. O faturamento da Elektro com a venda de energia em 2005 foi de R$ 3,2 bilhões.


Nesse ano, a empresa, sediada em Campinas (SP), propôs um pagamento recorde de dividendos correspondentes a 95% do lucro do exercício de 2005. Os ganhos da distribuidora foram de R$ 658 milhões e os dividendos a serem pagos chegam a R$ 608 milhões. A primeira parcela foi paga em 28 de abril e o restante será distribuído no dia 29 de setembro.


Além da distribuidora paulista, a Prisma possui no Brasil uma termoelétrica em Cuiabá e um gasoduto que leva o gás da Bolívia para a usina, o Gasmat. Além do Brasil, a Prisma tem ativos na Bolívia, entre eles os dutos de óleo e gás da Transredes, que cortam o país, e o Gasbol (detém o controle no lado boliviano).


A holding administra ainda empresas de geração e distribuição em mais de 20 países, entre eles Turquia (segundo maior ativo, depois do Brasil), Polônia e Filipinas. Como os ativos são pequenos e estão dispersos – portanto, difíceis de serem administrados -, especialistas acreditam que o Ashmore deverá vender alguns deles. ‘Creio que o Ashmore deverá, a partir de agora, receber várias propostas pela Elektro’, afirmou um executivo de banco de investimentos no Brasil.


Além do Ashmore, fariam parte do grupo que adquiriu a Prisma os fundos de hedge (uma espécie de multimercado com alavancagem) D.E. Shaw & Co e Eton Park Capital Management, dos Estados Unidos. Em janeiro, o D.E. Shaw já havia adquirido uma participação de 15% na transportadora de gás natural Gas del Sur, da Argentina, que já foi controlada pela Enron.


Consultada, a Elektro informou que uma porta-voz em Nova York iria se pronunciar sobre o assunto. A executiva foi procurada, mas não retornou as ligações para o seu escritório e seu celular. Em Londres, o Ashmore informou que não comenta seus investimentos e que o porta-voz não estava mais disponível para atender o Valor.’

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