Opinião: ‘Viver é recordar’

27 setembro 16:45 2006

Duas notícias algo perdidas na internet na terça, 26 de setembro, quatro dias antes das eleições, são extremamente importantes tanto pelo conteúdo quanto pela forma. A primeira é fundamental por revelar como integrantes do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) podem exceder suas funções. Segundo reportagem de Bob Fernandes para o Terra Magazine, não havia grampos telefônicos no Tribunal, como alardeado no último domingo. Naquele dia, a denúncia veio acompanhada de insinuações que botavam mais lenha na fogueira do embate político dos últimos dias.


Outra notícia trazida à luz aponta vitória do presidente Lula no primeiro turno, segundo pesquisa CNT/Sensus, com 51,1% dos votos. Ou seja, após quase uma semana de fogo cerrado contra a candidatura à reeleição e um ano depois de todo o tipo de ataque, Lula mantém-se estável.


Ambas as notícias, apesar do impacto que representam, não freqüentaram as manchetes principais dos sítios de notícia. A matéria que informava a ausência de grampos telefônicos no TSE só poderia ser encontrada por leitores minuciosos e atentos. A que confirmava a fenomenal robustez da candidatura Lula até foi estampada nas páginas iniciais, mas com chamadas pequenas e fugazes.


Não faltam exemplos de que o comportamento da grande imprensa é guiado por interesses partidários. Isso não nos espanta, afinal, sempre tivemos consciência de que jornalismo tem lado e que a imparcialidade é um mito. Porém, diante da indignação que a mídia simula toda vez que alguém emite esse conceito, é preciso reafirmá-lo para que a cortina de fumaça produzida pelo chamado grande jornalismo não nos confunda. Para que a justa contrariedade do povo com irregularidades e problemas que atrapalham o Brasil não seja manipulada de forma a apresentar a realidade como algo unidimensional.


Algumas ações das duas últimas semanas, especialmente depois da eclosão do chamado dossiê das sanguessugas, bastam para uma análise. As acusações contra ex-integrantes da CUT, há anos desligados da Central, serviram para que os jornais tentassem desmoralizar o movimento sindical dos trabalhadores. Os jornais só não investiram mais tempo nisso por acreditarem que o alvo preferencial, o governo Lula, já havia sido mortalmente atingido.


Em reportagem recente, a Folha de S. Paulo procura descrever a CUT como um núcleo de desenvolvimento de estratégias criminosas. Caprichando no termo ‘república de sindicalistas’, com ênfase pejorativa e habilidade um tanto covarde – por não ser explícito na acusação – o texto informa que a CUT, ao longo do tempo, adquiriu experiência no acompanhamento de recursos públicos e em formas de interferir na aplicação dos mesmos.


Se estivesse mesmo interessado em prestar um serviço ao país, como afirma em seu slogan, e não a serviço de claros interesses partidários e da classe dominante, como nós afirmamos, o jornal deveria, no mínimo, informar que a tentativa de interferir nas políticas públicas e a possibilidade de intervir no orçamento público também é uma prática constante de entidades patronais. E que o desempenho desse papel não é ilegal. Deveria também lembrar ao leitor que Fiesp, Febraban, CNI – só para citar algumas – também são sindicatos. E que, como tais, também recebem repasses dos sucessivos governos para execução de programas.


Ocultar essas informações é uma tentativa tosca de confundir a população, ou pelo menos a parcela que lê o jornal. É tentar nos impingir a farsa de que só trabalhadores precisam se organizar por serem os únicos a levar em consideração a idéia de interesses de classe. E de que apenas nós acreditamos na importância da intervenção do Estado. Cito apenas essa reportagem por considerá-la suficiente para desmentir os mitos do rigor e neutralidade apregoados por toda a grande mídia.


Por outro lado, reitero a convicção de que atos criminosos têm de ser punidos. Isso inclui a investigação isenta e o conseqüente castigo a integrantes de outros partidos além do PT. Até o momento, a atenção dada pela imprensa ao fato de que a máfia das sanguessugas atuava na gestão Serra, por exemplo, é risível.


Ainda esta semana, mais um exemplo escandaloso. Para ressuscitar outro escândalo, às vésperas da eleição, o Ministério Público denunciou o ex-ministro Humberto Costa, sob a acusação de envolvimento na máfia dos vampiros. Em frases inflamadas, analistas de rádio e TV e articulistas de jornal esqueceram-se de um detalhe fundamental: esses mesmos veículos de comunicação noticiaram, no segundo semestre de 2004, de que a máfia foi descoberta e desbaratada pelo atual governo durante a gestão de Humberto Costa. À época, o nome do antigo secretário adjunto de Serra no Ministério, Platão Fischer-Pühler, agora apontado como ‘revelação’, já freqüentara as páginas policiais. Como dizia o Platão original, ‘quem sofreu sob teu jugo te conhece’.


Entre a hipótese de que os jornalistas não lêem os próprios jornais em que trabalham e têm preguiça de consultar seus arquivos, ou de que está em curso um golpe midiático que pretende imbecilizar a opinião pública, fico com a segunda.


Os militantes do movimento sindical cutista e dos movimentos sociais devem manter a cabeça erguida e o orgulho de fazerem parte de um conjunto de ações que não só ajudou a redemocratizar o país, mas que continua remando contra as ondas produzidas por aqueles que, quando chamados de elite, protestam, envergonhados.

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