Analisando ‘friasmente’

29 setembro 18:20 2006

Quando os sindicatos ou os movimentos sociais ‘gritam’ contra o posicionamento da mídia em momentos cruciais da vida brasileira, como a eleição presidencial que se aproxima, os porta-vozes dessas empresas de comunicação se descabelam dizendo que querem acabar com a liberdade de imprensa. Qual é a liberdade de imprensa de um sistema em que rádios, tvs e jornais podem dizer o que bem entendem, tentam enganar a população com uma suposta neutralidade que nunca existiu e, pior, manipulam descaradamente informações.
 
Não foi uma nem duas vezes que vi editor de jornais comerciais chamar o jornalista e dizer algo tipo: ‘encontre uma pergunta para essa resposta’. Ou, em português ainda mais claro, o veículo já sabe o que vai escrever, que posição tomar e a função do jornalista é encontrar alguém para servir de fantoche e confirmar a posição que o veículo defende.


Entre as diversas instituições reacionárias que ainda persistem neste país, a mídia é, sem dúvida, uma das mais perigosas, que mantém seu oligopólio familiar como se o direito à informação fosse uma capitania hereditária a serviço dos interesses de quem sempre mandou no Brasil.


Mídia pitbull mostra os dentes – Para comprovar a parcialidade da mídia não são necessários discursos nem teses acadêmicas, os próprios veículos fornecem o material necessário para todas as análises possíveis.


E um dos institutos que se debruçou sobre esse trabalho foi o Observatório Brasileiro de Mídia (OBM), que avaliou como os principais jornais estão cobrindo as eleições e qual destaque dado aos principais candidatos. Os veículos analisados foram Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, O Globo, Correio Braziliense e Jornal do Brasil. Segundo o estudo, de 16 a 20 de setembro, Lula teve 62,5% de matérias negativas (218 textos em um total de 349), contra 20,6% (12 matérias) de seu principal adversário, o tucano Geraldo Alckmin.
Entre 19 de agosto e 15 de setembro, a média de matérias negativas sobre a candidatura Lula era de 53%. O aumento da carga negativa contra o presidente se deu na reta final da campanha, impulsionada pela atabalhoada operação tabajara da compra de dossiê dos sanguessugas.
 
No dia 20 de setembro, segundo o OMB, os jornais Folha de S.Paulo, O Estado de S.Paulo e O Globo dedicaram 97 reportagens à cobertura dos quatro candidatos. O instituto separou, para efeitos de análise, as matérias sobre o ‘candidato’ Lula e as que cobriam as atividades do presidente Lula. O candidato Lula teve 70 reportagens (72,1% do total), Alckmin, 6 (6,2%); Heloísa Helena 3 (3,1%) e Cristovam Buarque 3 (3,1%). O presidente Lula teve 15 (15,5%) reportagens.


Para o candidato tucano, 50% das matérias foram positivas e apenas 16,7% negativas, enquanto Lula teve 65,7% negativas e 21,4% positivas; em relação ao presidente Lula, 13,3% das reportagens eram positivas enquanto 33,3% eram críticas. ‘O fato que mais se destaca é o grande volume de reportagens. Nas últimas três semanas, os cinco jornais – Folha de S.Paulo, O Estado, O Globo, Jornal do Brasil e Correio Braziliense, têm dedicado 430 reportagens em média, por semana. Somente no dia 20 foram 97 reportagens em apenas três veículos – Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo e O Globo’, constata o texto do OMB.


Enganando o leitor – O Observatório Brasileiro de Mídia foi criado em janeiro de 2005, durante o Fórum Social Mundial e seu objetivo é o de acompanhar a atuação da mídia brasileira e fornecer elementos para a reflexão sobre o papel dos meios de comunicação. Para o tesoureiro da entidade Kjeld Jakobsen, a pesquisa sobre as eleições demonstra claramente o posicionamento tendencioso dos veículos pesquisados. ‘A pesquisa está sendo feita desde o dia 6 de julho e desde o início ficou clara a desigualdade no tratamento dado ao candidato Lula em relação a seu adversário Alckmin. Mas, na minha opinião, o maior problema é que a chamada imprensa comercial não explicita sua opinião, não informa seus leitores de que tem posição, ela tenta se passar por independente quando fica claro de que tem um lado’, analisa Kjeld.


Neste sábado, o OBM publica o último relatório antes das eleições. Para tomar conhecimento dos resultados acesse www.observatóriodemidia.org.br. (Norian Segatto)



 

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