Compadrismo

02 outubro 16:51 2006

Um dos últimos boletins eletrônicos de campanha do presidente Lula afirma que o ‘ódio’ de alguns meios de comunicação pela esquerda tem ‘motivos simples, embora inconfessáveis’. ‘Acostumados ao controle que detinham sobre a opinião pública desde a redemocratização do país, alguns meios de comunicação não se conformam com a situação atual, em que a maior parte do povo vota em Lula, contra a opinião da maior parte da mídia, que é alckmista. O que mais incomoda estes setores da direita e dos meios de comunicação são as mudanças na estrutura social brasileira’, diz o texto.


Nas últimas semanas, depois da eclosão da crise do dossiê contra Serra, o presidente tem feito duras críticas ao comportamento da imprensa. Em discurso feito em Porto Alegre nesta segunda-feira (25), Lula disse que a cada erro que companheiros do partido cometem os jornais reagem como se ‘tivesse caído uma bomba atômica’, repercutem ‘meses e meses’. Já o erro dos adversários sai ‘no dia seguinte das páginas dos jornais’.


Estaria Lula exagerando nessa avaliação? Na última terça-feira (26), o jornal O Globo publicou uma matéria intitulada ‘Ataque de Lula à imprensa provoca reações’, que afirma que, na opinião de jornalistas e políticos ouvidos pelo jornal, o ‘episódio da compra do dossiê contra o candidato do PSDB ao governo do Estado de São Paulo, José Serra, foi criado por integrantes do partido de Lula, não por jornalistas’.
 
A reportagem ouve, no entanto, somente fontes que confirmam a tese de que a cobertura estaria equilibrada. Na reportagem, o jornalista Alberto Dines, do ‘Observatório da Imprensa’, afirma que o discurso de Lula é ‘esquizofrênico’ e que a mídia ‘tem se comportado muito bem’. A outra fonte ouvida é o diretor de redação do jornal O Estado de S. Paulo, Sandro Vaia, que diz que a imprensa está cumprindo sua obrigação ao cobrir e dar espaço em suas edições ao episódio, sem ‘partidarismos’. O ombudsman da Folha de S.Paulo aparece dizendo que a imprensa tem agido corretamente ao dar visibilidade ao caso.
 
Ninguém discorda disso. No entanto, onde estaria o acompanhamento da imprensa do outro lado desta história? Por que nossas equipes de jornalismo investigativo não foram atrás, como a mesma profundidade, das informações que o dossiê trazia? Como foram determinadas as linhas de coberturas dos jornais, revistas e da televisão acerca do caso?


No dia 18 de setembro, poucos dias depois da prisão de Gedimar Passos e Valdebran Padilha em São Paulo, a análise interna de Marcelo Beraba, ombudsman da Folha de S.Paulo, dizia que parecia ‘correta até aqui a cobertura jornalística da Folha do dossiê contra Serra que os Vedoin tentavam vender para um membro do PT e uma revista. Desde sábado o jornal está bem informado, deu destaque necessário nas Primeiras Páginas, tem dado espaço para as várias acusações e para as várias defesas e explicações e tem tratado as acusações ainda não confirmadas com cautela’. Dois dias depois, no entanto, destacava que a ‘Folha relegou a uma nota pequena e sem destaque, no final da edição, à continuação da investigação que iniciou no interior de São Paulo seguindo as pistas reveladas pela entrevista dos Vedoin à IstoÉ e que relacionam os ex-ministros José Serra e Barjas Negri à máfia dos sanguessugas. Aliás, o título da nota – ‘Ex-prefeito admite ter sido pago por Abel’, página A14 – é impossível de ser decifrado. Quem é Abel?’.


Já no dia 21, Beraba afirma que ‘sumiu, na Edição SP, a única notícia que dava seqüência às investigações que a Folha vem fazendo do envolvimento de tucanos com a máfia dos sanguessugas. Na Edição Nacional, a nota ‘Barjas Negri é investigado em Piracicaba’ está na página A7, mas depois caiu’. No dia seguinte, o ombudsman aponta uma mudança importante na manchete da primeira página: ‘A Edição Nacional circulou com a declaração do presidente à TV Globo: ‘Lula põe ”a mão no fogo” por Mercadante’. Mais tarde, com o depoimento de um dos Vedoin à Polícia Federal, o título mudou: ”Vedoin isenta Serra do caso sanguessuga”.


Embora as palavras dos Vedoin já não mereçam grande credibilidade, tantos depoimentos e entrevistas contraditórios já deram; o jornal, ao optar por mais esta declaração, deveria ter colocado na formulação da manchete ou da linha de apoio a informação completa: Vedoin disse que não sabia de indícios contra Serra, mas voltou a acusar Abel Pereira de receber propinas na gestão do também tucano Barjas Negri, sucessor de Serra. O título interno contempla as duas informações e mostra que a Primeira Página teria condições de ter feito formulação parecida – ”Vedoin isenta Serra, mas acusa sucessor”. Como está, a manchete da Folha faz parecer que a única preocupação do jornal é isentar o candidato do PSDB ao governo de São Paulo, e não a apuração do esquema dos sanguessugas que teria se apropriado do Ministério da Saúde nos governos FHC e Lula’.


As críticas à cobertura do jornal continuam até esta quarta-feira (27), quando Beraba afirma que desapareceu, na Edição SP da Folha, a meia página de noticiário sobre o suposto envolvimento do ex-ministro Barjas Negri (PSDB) no escândalo dos sanguessugas publicada na Edição Nacional. ‘Os títulos das reportagens da Edição Nacional que caíram: ”Presidente de CPI vê prova contra tucano’

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