Eletrobrás voltará a exercer o papel de agente financiador

02 outubro 16:55 2006

Após dez anos, a Eletrobrás retomará a função de agente financiador da expansão do setor elétrico. ‘A partir de 2007, pretendemos retomar, parcialmente, o papel de financiador do setor elétrico’, afirma José Drummond Saraiva, diretor financeiro e de relações com investidores da holding estatal e presidente da Eletrosul.


No primeiro momento, a estatal irá financiar as suas subsidiárias. Em função disso, a empresa já avalia a carteira de projetos para definir o que será financiado. De acordo com Drummond, os recursos para viabilizar as operações de crédito serão oriundos da geração de caixa da holding.


Só para 2007, o volume de investimentos previsto para todo o grupo é da ordem de R$ 5,6 bilhões. Os principais projetos em carteira são as usinas arrematadas no leilão de energia nova, realizado em 2005: Paulistas (53,6 MW, GO), Baguari (140 MW, MG) , Simplício (333,7, RJ/ MG) e Retiro Baixo (82 MW, MG), adquiridas por Furnas, e Passo São João (77 MW, RS), concessão da Eletrosul.


O executivo cogita rever para baixo o custo do financiamento da companhia, hoje o Índice Geral de Preços do Mercado (IGP-M) mais 12%, a exemplo do que fez o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) ao manter apenas a Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP) como índice para as operações de crédito em projetos de geração e transmissão de energia elétrica.


Além da geração de caixa, a empresa não descarta a obtenção de recursos no mercado, seja externo ou interno. Para exemplificar o bom momento, Drummond conta que a estatal captou no exterior, em 2005, US$ 450 milhões ao custo de Libor mais 1,2%, ante uma oferta de US$ 1 bilhão. ‘Havia oferta para captarmos mais a um custo muito baixo’, diz. Para o executivo, o baixo nível de endividamento da companhia facilita as operações de financiamento.


Atualmente, a Eletrobrás conta com recursos externos para viabilizar a implantação de cinco projetos na área de geração. Recentemente, foi aprovado um financiamento de US$ 430 milhões para a ampliação da termoelétrica Candiota II, denominada Fase C (350 MW, RS). O montante, oriundo do banco de desenvolvimento chinês Citic Group e do PNB Paribas, representa 100% do investimento, a um custo compatível com Libor mais 1,2%.


Outro financiamento previsto é para as quatro Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCH) que integram o Complexo Hidroelétrico São Bernardo (55 MW, SC). O banco alemão KFW disponibilizará 38 milhões de euros para os quatro projetos, valor que representa 60% do investimento.


No caso de Paulista, Simplício e Passo São João, a Eletrobrás negocia financiamento junto ao BNDES. Dificulta o processo o fato de a concessão dos empreendimentos ser exclusivamente estatal, o que enquadra o caso na Resolução nº 2.728/2001 do Conselho Monetário Nacional (CMN), que restringe o financiamento para o setor público. Uma das alternativas em análise para viabilizar a operação é o uso de duplicatas como garantia, exceção prevista na resolução.
Por se tratar de um investimento relativamente baixo, cerca de R$ 260 milhões, Drummond não descarta construir a usina Passo São João com recursos próprios.


Bolsa


O anúncio da retomada do papel de financiadora coincidiu com a adesão da Eletrobrás no nível 1 da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) na última sexta-feira. Segundo Drummond, a estatal já cumpre grande parte das regras do nível 1. O free float da companhia, por exemplo, é de 35%, acima do exigido de 25%.


A Eletrobrás não pretende parar por aí. Os planos no mercado de capitais incluem a adesão ao Nível 2 da Bovespa, mas não há uma definição de data para isso ocorrer. Já a entrada para o Novo Mercado ainda não está em discussão porque, segundo Drummond, é preciso estudar de que forma se dará a migração dos 20% de acionistas preferencialistas para as ações ordinárias, o que torna o assunto delicado.


No exterior, até o final do ano a Eletrobrás enviará à Securities and Exchange Commission (SEC) o formulário para a adesão da companhia no ADR nível II da Bolsa de Nova York. ‘A Eletrobrás é uma empresa complexa. O envio do formulário depende de alguns ajustes, que estão sendo trabalhados pelos auditores’, diz.


Na Europa, a estatal inicia prospecções para negociar ações em Londres e em Frankfurt, as principais bolsas da região. Mas a intenção terá de ser aprovada pela diretoria da empresa e pelo conselho de administração. (Wellington Bahnemann)

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