Eva, a inimiga de Bush

07 março 18:52 2007

Eva, seduzida pela serpente, induziu Adão ao erro inaugural da condição humana. Dessa influência surgiram todos os nossos problemas, desde aqueles enfrentados no local de trabalho até a própria invasão do Iraque.


Alguém duvida que esse tipo de pensamento habita o pequenino território abarcado pela mente de Bush? Criacionista e defensor de uma interpretação fundamentalista dos textos religiosos, o desastrado presidente norte-americano certamente vê em Eva uma das componentes do que ele chama eixo do mal.


A presença de Bush no Brasil se torna ainda mais desagradável por acontecer no Dia Internacional da Mulher. O refluxo imposto aos interesses e direitos das mulheres sob a gestão de Bush são de espantar até mesmo um país conservador desde sua gênese. A derrota imposta aos republicanos nas últimas eleições para o Congresso foram reflexo da luta dos movimentos organizados norte-americanos, o feminista entre os principais.


Ao exortar os seus compatriotas a não fazer sexo, como forma de combate à Aids, Bush prestou um desserviço ao processo civilizatório que tem, entre outras conseqüências, impacto profundo sobre a políticas públicas de saúde da mulher em todo o mundo. Seu governo suspendeu repasses públicos para organizações dedicadas a programas de educação sexual que ousassem tratar de temas como aborto. Houve corte de verbas também para a distribuição de camisinhas. Enviados da ONU a países africanos denunciaram, há dois anos, que a visão sexual dos falcões de Washington havia diminuído ainda mais a oferta de preservativos na região, precipitando mais e mais mulheres e homens na tragédia da Aids. No Quênia, que havia conseguido diminuir os índices de contaminação, os esforços começaram a ser desfeitos.


Para impor sua filosofia de alcova, Bush filho preferiu aumentar repasses de verbas para fundos antiaids contrários ao uso de camisinhas, ao redor do mundo, segundo outra denúncia da ONU. Há outros exemplos dessa estreiteza de visão apontados por ativistas de diferentes países. Clínicas de apoio à mulher têm sistematicamente baixado suas portas. Em 2003, o Ministério da Saúde brasileiro rejeitou uma ajuda de US$ 48 milhões que os Estados Unidos ofereceram para programas de combate à Aids, condicionados à condenação pública da prostituição. Proposta indecente, sem dúvida.


O Conselho Americano de Educação, entidade que congrega instituições de ensino médio, denunciou o corte orçamentário de US$ 500 milhões para financiamento dos estudos de adolescentes de baixa renda. Segundo o Conselho, 61% dos prejudicados pela medida são meninas. O impacto sobre as famílias, e mais especialmente sobre as mães, não foi calculado em números, mas pode ser imaginado.


Bush se opõe a avanços que podem até ser considerados tímidos dada sua origem no âmbito da ONU. Em 2005, dez anos após a promulgação da Plataforma de Ação de Beijing – instrumento de promoção da liberdade e afirmação política das mulheres – a delegação americana, durante conferência para avaliar os avanços do período, incluiu no documento um texto com teor antiaborto.


Na própria Casa Branca a discriminação contra as mulheres é gritante – que a presença de Condoleeza Rice, de truculência tão ao estilo machista, não nos iluda. Reportagem do Washington Post em 2004 mostrou que o salário de todos os homens do presidente era, em média, de US$ 76, 6 mil ao ano, enquanto o das mulheres não passava da média de US$ 60 mil. Devemos admitir, no entanto, que a diferença salarial entre homens e mulheres não é privilégio dos EUA de Bush.


O baixo astral que assola os Estados Unidos tem várias facetas. Desde que Bush passou a cortar impostos para favorecer os mais ricos – o que lhe rendeu oposição até mesmo entre ilustres e influentes empresários – mais de 300 mil mulheres perderam seus empregos e não mais os recuperaram, segundo o instituto Job Watch. O instituto, que não é exatamente uma entidade de esquerda, tem uma conclusão assustadora: ‘De fato, desde que a política de corte de impostos teve início, os Estados Unidos têm visto a maior destruição de vagas de trabalho desde a Grande Depressão’. O desemprego foi uma das fortes razões que levaram o movimento sindical norte-americano a se empenhar pela recente derrota eleitoral de Bush.


Informações de interesse das mulheres sumiram das páginas de internet governamentais norte-americanas, segundo o Conselho Nacional para Pesquisas sobre Mulheres. Entre os dados retirados das páginas constam orientações sobre o uso de camisinhas. Estranha obsessão, essa. O presidente chegou a propor que a ajuda de custo para planejamento familiar dos trabalhadores públicos federais fosse eliminada, mas foi contrariado pelo Congresso. Em 2002, antes portanto de acumular enormes índices de rejeição entre os eleitores, Bush propôs que o orçamento federal eliminasse as verbas para programas de assistência às gestantes e à saúde dos bebês.


Bush não é presidente dos Estados Unidos por acaso. Em algum momento, ele falou aos corações de uma enorme parcela do eleitorado que tradicionalmente apóia atentados às liberdades mundo afora (abroad, como dizem), ainda que não saiba qual a capital dos países que jura defender em sua auto-intitulada cruzada pela liberdade. Se as mulheres afegãs hoje precisam carregar sobre si aquele pesado manto, foi porque para os EUA era necessário entregar o país aos fundamentalistas talebãs que desafiavam a União Soviética.


Exemplos não faltam, podem ser colhidos à farta. Para sintetizá-los, basta lembrar a fala do porta-voz da Casa Branca, Ari Fleischer, reportada pela agência de notícias PR Newswire, em 2002. Para Fleischer, discriminação contra mulheres não é tão grave quanto a discriminação racial ou étnica. ‘São categorias diferentes para o presidente Bush’, afirmou o porta-voz.
Vivam as mulheres. Viva a luta das mulheres em todas as partes do mundo. E fora Bush!

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