Troca de lâmpadas é incentivada, mas falta capacidade

02 julho 16:34 2007

Segundo Everton de Mello, da Osram, ‘os brasileiros migraram massivamente para as eletrônicas desde o apagão’.


As lâmpadas incandescentes estão com seus dias contados. Com tecnologia praticamente inalterada desde o surgimento da iluminação elétrica, as incandescentes gastam 80% mais energia do que as eletrônicas, chamadas LFC. Na Europa, em dez anos elas desaparecerão das prateleiras dos supermercados. Na Austrália, o prazo é até 2010 e nos Estados Unidos o tema começa a ser discutido. Mas no Brasil, a política energética não contempla esta questão.


Além do consumo desnecessário de energia, o aproveitamento em iluminação é menor. Apenas 5% são revertidos em iluminação – 95% se dissipam na forma de calor. O gasto energético maior se traduz em uma contribuição significativa para o aumento do aquecimento global. Só na Europa, onde existem 3,6 bilhões destas lâmpadas ineficientes, a substituição por eletrônicas poderia deixar de emitir 23 megatons de CO2 na atmosfera, o que equivale à produção de 27 usinas termoelétricas. O relatório do terceiro grupo de trabalho do IPCC – o órgão científico das Nações Unidas -, divulgado em maio, recomenda o esforço mundial em maior eficiência energética para enfrentar o problema do aumento da temperatura da Terra. 


Até agora, o Brasil está na contramão desta tendência. Nenhuma fábrica instalada no país produz as lâmpadas fluorescentes compactas, as LFC. Tudo o que existe no mercado vem da China, que responde por 80% ou mais da produção mundial das lâmpadas mais eficientes. No Brasil, os fabricantes não abrem seus números: as estimativas são de um mercado total que oscila entre 250 milhões de lâmpadas/ano a 500 milhões de lâmpadas/ano. As LFC teriam conquistado uma fatia de 20% deste mercado desde a época do apagão, em 2002, segundo a Associação Brasileira de Iluminação, a Abilux, entidade que reúne os fabricantes. 


O mercado mundial de reposição das incandescentes, que representa cerca de 13 bilhões de lâmpadas anualmente, ainda é um gerador importante de receita para os fabricantes. ‘As empresas continuarão produzindo as incandescentes enquanto houver mercado. É um faturamento inicial menor, mas tem um mercado de reposição’, diz o presidente da Abilux, Carlos Eduardo Uchôa Fagundes.


Para o vice-presidente de iluminação para a América Latina da Philips, Manuel Frade, ‘economicamente, é inviável acelerar a substituição das lâmpadas tradicionais pelas LFC’. E emenda: ‘Não dá para multiplicar a produção a ponto de suprir todo o mercado mundial e depois ficar com capacidade ociosa’, continua. Isto porque uma lâmpada eletrônica dura até 20 vezes mais do que uma normal, e a maior durabilidade cria forte impacto no mercado de reposição dos fabricantes. Uma lâmpada convencional tem vida útil de, em média, apenas um ano ou 750 horas. Em termos de preço, a diferença também é grande: no mercado brasileiro, uma LFC pode custar até 10 vezes mais que a comum.


Clode Cohen, professora da Universidade Federal Fluminense (UFF) e colaboradora da Coppe/UFRJ, diz que nos consumidores brasileiros das classes média e alta a substituição de lâmpadas ocorre em patamares elevados por conta das campanhas de conscientização realizadas na época do apagão. Segundo um estudo feito pela Coppe e pela CEPEL (Centro de Pesquisas de Energia Elétrica), a pedido da Eletrobrás, nas casas onde o consumo varia de 201 kW a 300 kW, existem, em média, duas eletrônicas para cada cinco pontos de luz; nas residências com consumo superior a 300 kW, a metade das lâmpadas é econômica. Mas entre os consumidores de baixa renda, com consumo até 200 kW, o número de eletrônicas não chega a uma lâmpada para cinco pontos de iluminação. O preço das LFC afasta os consumidores de menor poder aquisitivo. ‘Seria a forma mais barata de se economizar energia no país’, destaca Clode.


Segundo estudo do Ministério das Minas e Energia, de março de 2006, com base em dados da Abilux, a troca de 20% dos estimados 300 milhões de pontos de luz do país, significaria uma redução no consumo equivalente à uma hidrelétrica de 230 MW por ano.


As concessionárias de energia são obrigadas a investir cerca de R$ 200 milhões por ano em eficiência energética, por determinação da Agência Nacional de Energia Elétrica, a Aneel. Maximo Luiz Pompermayer, superintendente de pesquisa e desenvolvimento em eficiência energética da Aneel, afirma que mais da metade deste valor é utilizada na conscientização do público de baixa renda em diminuir o consumo e incorporar este consumidor, muitas vezes clandestino, à rede elétrica. ‘Inicialmente, houve certa resistência de algumas concessionárias em aderir à regra da Aneel’, diz Pompermayer. ‘Mas depois perceberam que se trata de uma iniciativa interessante, porque aumenta a oferta de energia delas’, ressalta. 


Não há no Brasil, a curto prazo, nenhuma orientação de migrar das lâmpadas convencionais para as LFC. No ministério, três pontos centralizam, por ora, esta decisão. O primeiro, é o preço de uma LFC, que deixaria cidadãos de baixa renda de fora do consumo de luz elétrica. O segundo é o impacto ainda desconhecido da utilização das eletrônicas na rede de energia. E o último ponto é a economia que a substituição traria ao país, já que o momento é de discussão de uma falta de energia. ‘No Ministério de Energia, temos conversado em caráter preliminar sobre o tema’, conta o coordenador-geral de eficiência energética do ministério, Paulo de Tarso Alexandria Cruz. 


A economia energética das LFC, comprovadamente menos prejudiciais ao meio ambiente, traz, no entanto, um problema de oferta mundial. Em Cuba, Fidel Castro comprou 14 milhões de LFC, em 2006, da Philips, informa Frade. A compra feita pelo país foi suficiente para afetar a oferta de LFC. ‘Nos EUA, alguns estados estão decretando a substituição, mas tenho uma notícia ruim para eles: não haverá lâmpadas suficientes’, alerta o executivo da Philips. Hamparsan Chekerdemian, diretor comercial e de marketing da SLI Sylvania para o Mercosul, confirma que ‘no ano passado, houve momentos de demora no suprimento. Neste ano, os sinais continuam pendendo mais para a falta do que para a equação da oferta e demanda’.


Na avaliação do gerente de vendas da Osram no Brasil, Everton Luis de Mello, não há hoje, no mundo, fabricante com capacidade para suprir a demanda por LFC, se a tendência de substituição se alastrar por mais países no curto prazo. O fato da maior parte da produção estar instalada na China ocorre porque a mão-de-obra e o custo do país são menores. Há também algumas unidades de produção na Índia e na Europa. (Guilherme Manechini)

  Categorias: