CPFL reforça interesse por ativos da Eletropaulo

17 agosto 16:57 2007

Técnicos avaliam a viabilidade do negócio e o valor da empresa, estimado em R$ 11 bilhões


Enquanto as empresas energéticas e empreiteiras brasileiras traçam as estratégias para participar do megaprojeto hidrelétrico do rio Madeira, a CPFL Energia mira sua atenção na possibilidade de compra da Brasiliana, holding criada em 2003 para controlar a Eletropaulo e outros ativos da norte-americana AES. ‘Trata-se de um negócio para poucos players e a aquisição desses ativos faz muito sentido para nós’, diz o presidente da companhia, Wilson Ferreira.


A CPFL não esconde o interesse em participar de um dos consórcios formados para a disputa do leilão da primeira usina do Madeira (Santo Antônio, 3.150 de megawatts) – marcado para 30 de outubro. Mas, de acordo com Ferreira, ‘o projeto Eletropaulo e AES Tietê’ é o mais maduro entre os novos planos estratégicos da companhia para crescer por meio de aquisições. ‘Deslocamos uma equipe de técnicos para levantar os dados e estudar a viabilidade do negócio’, diz Ferreira, que calcula entre R$ 10 bilhões e R$ 11 bilhões o valor de mercado da Eletropaulo e AES Tietê – os dois ativos mais atraentes da Brasiliana.


Em maio passado, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico Social (BNDES), que detém 49,99% da Brasiliana, por meio do seu braço financeiro BNDESpar, comunicou à holding que pretende exercer o direito de venda de suas ações, conforme acordo de acionistas fechado em dezembro de 2003. A AES Brasil, que possui os outros 50,01% de participação na Brasiliana, tem direito de preferência para comprar a fatia do BNDES. No entanto, a AES terá cerca de um mês, após o leilão de venda de parte da Brasiliana, para definir se ficará ou não com a parte negociada, explica Ferreira. Caso resolva não assumir a participação do BNDES, o grupo norte-americano precisará, obrigatoriamente, vender também a sua participação na holding, pelo mesmo preço do valor fechado no leilão das ações controladas pelo BNDESpar.


Ontem, durante o evento de apresentação do balanço financeiro da AES no segundo trimestre do ano, em São Paulo, o presidente da corporação no Brasil, Britaldo Pedrosa Soares, afirmou que o grupo ‘tem, sim, interesse em adquirir as ações do BNDES na Brasiliana’. Porém, o grupo não descarta a possibilidade do processo de compra ser feito via parceria, o que coloca a CPFL e outras interessadas pelos ativos – como a estatal mineira Cemig e a holding Neoenergia – entre os possíveis novos sócios do grupo norte-americano. Ainda segundo Soares, os ativos da AES representam 30% do faturamento global da AES Corp, o controlador do grupo no Brasil. Na avaliação da CPFL, a entrada de parceiros na disputa pelos ativos das empresas do grupo AES será bem-vinda. ‘Com sócios, poderíamos compartilhar os riscos, além de brigar por melhores preços’, diz Ferreira.


Segundo o presidente da CPFL, os dois agentes financeiros contratados para avaliar os ativos da Brasiliana – o JP Morgan, contratado pelo grupo AES, e o Citibank, escolhido pelo BNDES – devem entregar os seus trabalhos até o fim deste mês. ‘A partir daí, as avaliações feitas pelas duas instituições serão confrontadas e, caso haja convergência dos valores estipulados, o leilão deverá ocorrer no final de outubro, começo de novembro’, afirma Ferreira. De acordo com o presidente da AES no Brasil, se houver discrepância acima de 10% entre os valores exibidos pela JP Morgan e o Citibank, será preciso contratar um terceiro avaliador, que será escolhido em comum acordo entre o BNDES e o grupo AES.


Para a CPFL, uma eventual participação da empresa sediada em Campinas (SP) nos negócios da AES Eletropaulo e da AES Tietê colocaria o grupo numa situação bastante confortável frente aos seus concorrentes, tanto na área de distribuição quanto na geração. Na área de distribuição, Ferreira destaca a grande sinergia entre as empresas dos dois grupo – Eletropaulo (SP) e AES Sul (RS) e, pelo lado da CPFL, as companhias Paulista, Piratininga, RGE e Santa Cruz. ‘Algumas das nossas empresas atuam em regiões próximas das áreas de concessão da Eletropaulo’, diz Ferreira. ‘A própria CPFL Piratininga é originária da Eletropaulo’, lembra o executivo. A Eletropaulo distribui energia para 24 municípios da região metropolitana de São Paulo, incluindo a capital. A área de concessão reúne 5,6 milhões de unidades consumidoras.


Reforço na geração
Reconhecida como uma empresa tipicamente distribuidora de eletricidade, a CPFL vai aos poucos, e sem muito alarde, demostrando maior interesse pela área de geração. A compra integral das empresas de geração da AES Eletropaulo, por exemplo, mudaria radicalmente o perfil da companhia. ‘Seria possível triplicar a participação da geração nos negócios do grupo’, afirma Ferreira, referindo-se à adição ao portfólio da holding da energia fornecida pelas duas geradoras do grupo AES, a Tietê, concessionária de dez hidrelétricas no estado de São Paulo, com capacidade instalada de 2.651 MW, e a Uruguaiana, térmica localizada no Rio Grande do Sul, de 639 MW.


Juntas, as duas geradoras do grupo AES somam quase 3.400 MW de capacidade instalada, potência superior ao volume de energia que será produzido pela primeira hidrelétrica do projeto no Rio Madeira, de 3.150 MW. Além disso, o contrato de concessão da AES Tietê obriga a companhia a expandir, até dezembro, em 15% a sua capacidade de geração, o que representará um acréscimo de 400 MW ao parque gerador atual. Assim, ao acrescentar as empresas de geração da própria CPFL, além dos projetos em andamento, o grupo sediado em Campinas teria, somado os ativos da AES, uma potência instalada de quase 6.000 MW em 2010, ano em que será concluído o maior projeto da empresa, a usina Foz de Chapecó.


No entanto, mesmo que a CPFL resolva ficar de fora de todas as disputas pelo controle, ou participação minoritária, de empresas à venda – a Companhia Energética de São Paulo (Cesp) também pode ir à leilão -, a holding terá, no futuro próximo, um parque gerador bastante significativo, considerando que a empresa que produzia num passado não muito distante apenas 140 MW.


Segundo dados da companhia, até o terceiro trimestre de 2010, a geração da CPFL subirá para 2.174 MW, quase 35% acima da potência prevista para este ano, de 1.615 MW, e mais que o dobro da capacidade alcançada no ano passado, de 1.072 MW. (Denis Cardoso)

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