Preços de energia elétrica e gás vão subir, diz especialista

11 janeiro 14:37 2008

Os preços da energia elétrica e do gás vão subir em breve. A análise é do especialista Adriano Pires, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e fundador do Centro Brasileiro de Infra-Estrutura (CBIE), que presta consultoria na área da indústria de energia.


Segundo Pires, o aumento dos preços é a única maneira de promover a redução do consumo, necessária para controlar a crise.


O especialista declarou ainda que existe o risco de um racionamento de energia, mas destacou que é impossível afirmar se ele ocorrerá ou não. ‘Costumo comparar com um paciente na UTI. Claro que ele tem o risco de morrer, mas não se pode dizer que vai’, explicou. Segundo ele, no entanto, vivemos um ‘racionamento econômico’, pois a alta de preços acaba reduzindo a capacidade de consumo.


O diretor-presidente da Associação Nacional de Consumidores de Energia (Anace), Paulo Mayon, no entanto, discorda de que os preços para o consumidor final possam subir imediatamente. ‘O preço da energia tem reflexos diferentes para atacado e varejo. As grandes indústrias têm um contrato de energia e, se gastarem mais do que haviam comprado, elas precisam comprar no mercado à vista. É esse preço que está subindo. Quando isso ocorre com a concessionária de energia, como a Light, ela não pode repassar esse valor ao consumidor, porque essa tarifa é regulada pela Aneel [Agência Nacional de Energia Elétrica]. Só quando houver um reajuste tarifário, que pode levar até um ano, é que o valor deverá ser repassado’, explicou. 


Mayon também não é tão pessimista com relação à possibilidade de um apagão. ‘A possibilidade de dizer que haverá um racionamento ainda é baixa, porque estamos apenas no início do período chuvoso, que vai até abril. A população precisa estar alerta porque a previsão para as próximas semanas não indica um volume de chuva tão grande quanto precisávamos e o nível dos reservatórios estão baixos, mas dizer que o clima será seco até abril é traçar um quadro bastante pessimista’, disse.


O especialista, por outro lado, admite que o quadro é parecido com o de 2001, quando houve racionamento no Brasil. ‘O consumo aumentou 20% de 2001 para cá, mas os reservatórios não estão tão baixos quanto na época. Ou seja, temos um pouco mais de água, tendência de chuva parecida e maior consumo’.


Falta de gás natural


De acordo com Pires, as usinas termelétricas poderiam ser suficientes para cobrir a falta de hidrelétricas, mas isso traria outro problema, o da falta de gás. ‘Seria descobrir um lado para cobrir outro. A utilização das termelétricas tiraria o gás dos consumidores, o que prejudicaria taxistas que usam GNV como combustível, por exemplo’.


Mayon também declarou que as termelétricas trariam problemas no consumo de gás. ‘Se realmente faltar água, teremos que acionar as térmicas, que não existiam em 2001. Mas surge o problema do uso do gás, usado na indústria, no comércio etc. Provavelmente, haveria um corte seletivo, nos segmentos que são bicombustíveis, como indústrias que podem operar com dois combustíveis. O taxistas, por exemplo, teriam que usar gasolina’, explicou.


Causas da crise


Para o professor Pires, a crise surgiu por uma combinação de dois fatores, a estiagem e o crescimento do Brasil. ‘Esses dois fatores não se combinavam há cinco anos. Por isso, a falta de gás, que ocorre desde 2005, e de energia elétrica foram mascarados. Agora, esses problemas estão aparentes’.


Um especialista da Universidade de São Paulo (USP), que preferiu não ter o nome divulgado, concorda com os problemas na gestão de energia no País. Para ele, a administração é precária desde a década de 1990, o que deixou o Brasil dependente das chuvas. ‘Estamos nas mãos de São Pedro devido à má gestão do setor. A única coisa que o povo pode fazer agora é rezar’.


Ele apontou as principais causas da crise, entre elas, a legislação, que permitiu que os grandes consumidores e comerciantes comprassem energia por 20% de seu custo desde 2004. Outra razão seria os  contratos emergenciais no valor de R$ 6,2 bilhões, assinados em abril de 2002, relativos a usinas que valeriam R$ 2 bilhões e que foram desativadas em 2005. Um terceiro ponto destacado pelo especialista são os contratos da Eletronorte, que vende energia pela metade do custo para a indústria de alumínio.


Problemas futuros


Adriano Pires classifica a situação como preocupante. ‘Acho que nos próximos três anos vamos viver uma situação muito incômoda com relação à oferta de energia elétrica no Brasil’, disse, completando que, se não chover até o início de abril, o governo terá dificuldades para administrar a escassez de gás e água.


O professor explicou que essa situação pode prejudicar indústrias, que perdem competitividade, e frear o desenvolvimento do Brasil. ‘Temo que mais uma vez o setor energético seja o responsável pelo aborto do desenvolvimento do País’, afirmou.


Para ele, o governo deveria começar programas de conscientização da população. ‘As pessoas têm que entender que a energia é um bem escasso e que é preciso poupá-la para evitar chegar à situação de 2001’, disse. (Bárbara Skaba)

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