Ganhos reais diminuem com alta da inflação

30 junho 13:27 2008

As negociações salariais concluídas no primeiro semestre garantiram aos trabalhadores ganhos reais, apesar da aceleração nos índices de inflação no segundo trimestre. De acordo com informações fornecidas por sindicatos que têm dissídio entre abril e junho, os reajustes superaram os índices inflacionários em todas as negociações. Contudo, os aumentos superiores a 2 pontos percentuais, mais comuns em 2007 e no início deste ano, tornaram-se mais escassos, concentrando-se em áreas que mantêm atividade aquecida, como construção civil e metalurgia. 

Os reajustes salariais acima da inflação geram controvérsia entre economistas. Para os que comparam o ganho real médio com a produtividade, o cenário não oferece risco de mais acelerações na inflação futura. Isso porque o aumento real de salários, estimado entre 1,5 e 2 pontos percentuais, é inferior ao ganho de produtividade – que no acumulado de 12 meses até abril cresceu 4,47% na indústria, segundo cruzamento de dados de duas pesquisas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) -, a de produção e a de emprego e salário na indústria. O custo mais alto com salários está sendo, portanto, compensado pelo ganho de produtividade e pode ser absorvido pelas empresas. 

Já os economistas que avaliam a relação entre renda, potencial de demanda e inflação futura, concluem que o ganho real ajuda a manter a demanda aquecida e facilita o repasse de preços, fazendo com que a inflação de meses anteriores alimente a inflação futura. 

Para Edgard Pereira, professor da Unicamp e sócio-diretor da consultoria Edgar Pereira & Associados (Edap), o crescimento real de salários não configura um quadro de pressão inflacionária. ‘Enquanto os ganhos de produtividade superam o aumento real da massa de salários, não há pressão inflacionária’, afirma. Desta forma, argumenta, o aumento salarial não gera pressão de custo na produção. Para o economista, a inflação acelerada comprometerá mais a renda disponível nos próximos meses, contribuindo para reduzir a taxa de crescimento do consumo das famílias. 

A MB Associados inclui outro indicador na leitura dos ganhos salariais. Sérgio Vale, economista-chefe da consultoria, observa que o rendimento real médio cresce, mas a um ritmo inferior ao do ano passado. Ele estima aumento de 1,5% a 1,6% neste ano, ante 3,3% em 2007. O número de empregos gerados tem incremento semelhante ao de 2007, em torno de 3%. Somados, os fatores provocam um aumento na massa real de rendimentos de 4,6% em 2008, ante 6,3% no ano passado. Para 2009, a projeção é de nova redução na taxa, para 4%, resultado do aumento de 2,5% na oferta de empregos e de 1,5% de ganho real dos salários. 

O economista não descarta o risco de que o reajuste das categorias fique totalmente atrelado à inflação passada, superando em algumas áreas os ganhos de produtividade, como foi observado até abril nos setores de alimentos e bebidas, coque e refino de petróleo, metalurgia básica e produtos de metal. Mas o mais provável, segundo ele, é que as empresas se saiam melhor na queda-de-braço. ‘Como os custos dos insumos também estão mais altos, como no caso de produtos químicos, petroquímicos e insumos agrícolas, o que vai ocorrer ao longo do ano é uma negociação mais difícil nos dissídios. Os trabalhadores, que viram boas negociações neste semestre vão pedir o reajuste da inflação mais um delta e as empresas vão tentar reduzir esse ganho.’ 

Jesus Francisco Garcia, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Energéticos do Estado de São Paulo (Sinergia CUT), reconhece que as empresas endureceram o tom das negociações. ‘A alta da inflação logicamente atrapalha as negociações salariais. As empresas estão mais resistentes. Tivemos que pressionar mais e buscar ganhos por outros meios, como participação nos lucros e aumento do tíquete refeição’, afirma. 

O sindicato, que congrega em torno de 30 mil trabalhadores, fechou em março apenas uma negociação com ganho real abaixo de 1%. Um dos acordos implicou em um aumento real de 2,41% e o outro, em 4% reais. Entre abril e maio (utilizando diferentes indicadores de inflação), em cinco acordos fechados, dois tiveram ganho de até 1 ponto percentual sobre a inflação, dois ficaram em 1,5 ponto e 1,65 ponto percentual de ganho e apenas um superou 2 pontos. 

Para a RC Consultores, o ganho real de 1,5 ponto percentual, na média projetada para o ano, não oferece grande risco ao cenário de inflação. ‘O risco está na valorização das commodities no mercado internacional. Enquanto os preços não se estabilizarem no mercado externo, o risco inflacionário persistirá no Brasil’, afirma Fábio Silveira, sócio-diretor da RC. Para ele, a inflação mais alta neste momento vai corroer a renda disponível e inibir o consumo. Para o segundo semestre, a perspectiva é de que os sindicatos tenham mais dificuldades de obter ganhos acima da inflação. A RC projeta um aumento da massa real de salários de 5,5% neste ano e de 3,5% em 2009. 

O economista Fabio Romão, da LCA Consultores, compartilha a tese de que o ganho real inferior ao de 2007 e a inflação mais forte desestimularão o incremento do consumo, o que foi observado em abril pelo IBGE. No último levantamento divulgado, as vendas no varejo cresceram 0,2% ante março, com ajuste sazonal. No mês anterior, haviam aumentado 1,5%. No segmento de hipermercados e produtos alimentícios, houve queda de 0,1% em abril ante março e incremento de 6,4% em 12 meses, tendo sido a área responsável pela desaceleração do varejo. A causa, lembra Romão, é a inflação mais alta dos alimentos, que novamente responde por metade da variação dos índices inflacionários. 

‘O ritmo de crescimento da atividade começa a diminuir e esse processo de desaceleração será mais forte no próximo ano’, diz. A LCA prevê aumento de 9% nas vendas do varejo neste ano, ante 9,6% em 2007 e de 6% no próximo ano. A consultora também projeta redução no grau de crescimento do consumo das famílias, com variação de 5,6% neste ano, ante 6,5% no ano passado, e de 4,2% em 2009. 

A SLW Asset Management faz outra ponderação sobre o cenário. Carlos Thadeu de Freitas Gomes Filho, economista-chefe da consultoria, observa que o aumento da massa de rendimentos segue crescendo na mesma proporção que a inflação, o que faz com que o poder de compra dos trabalhadores siga inalterado. Além disso, o INPC, usado como base para as negociações de reajustes salariais pela maioria dos sindicatos, subiu mais que o IPCA, que apura a inflação no varejo. Em maio, o INPC acumulava em 12 meses alta de 6,64% e o IPCA, de 5,58%. 

‘Existe um resquício de indexação na economia brasileira que pode ter um efeito prejudicial para a manutenção da política monetária’, diz. Para Gomes, a inflação mais alta levará os trabalhadores a buscarem reajustes mais altos neste ano, estendendo a pressão inflacionária para o futuro. ‘Há ainda o temor de que o reajuste do Bolsa Família com ganhos reais piore mais esse quadro.’ Para ele, o ideal seria reduzir o salário real para dirimir a pressão de consumo. ‘É triste dizer isso mas, no momento atual, o que não pode acontecer é recomposição salarial.’ 

Na avaliação do economista Luiz Roberto Cunha, da PUC-Rio, mais preocupante que a eventual pressão de demanda da massa salarial sobre a inflação é o efeito do reajuste do salário mínimo em 2009. ‘O ano de 2008 já está dado. O grande ponto será 2009, quando o nível de atividade estará menor e a inflação será alta. Com a indexação do salário mínimo, haverá pressão sobre os custos e a demanda’, disse Cunha, que projeta reajuste de 13,5% a 14% no salário mínimo em março de 2009, indexado pela soma da variação do INPC em 12 meses com o PIB de 2007. (Cibelle Bouças e Ana Paula Grabois)

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