BNDES vai ajudar na travessia da crise, mas quer que ela seja curta

06 janeiro 10:59 2009

O BNDES encerrou 2008 com desembolso recorde de mais de R$ 90 bilhões, sustentado por projetos de infra-estrutura, expansão da capacidade produtiva da indústria e de novas fábricas.


O diretor de Planejamento do banco, economista João Carlos Ferraz, 55 anos, especialista em política industrial, professor da FEA-UFRJ, ex-Cepal e alçado ao cargo em junho de 2007 pelo presidente Luciano Coutinho, de quem é amigo, destaca que a qualidade desse desempenho se deve a uma demanda aquecida por crédito das empresas, que já vinha em marcha antes da crise global.


‘O BNDES reflete o que está acontecendo na economia real e o país estava numa trajetória ascendente, principalmente em relação ao investimento e creio que deve permanecer crescendo, mas em patamares menores’, diz. Para ele, o que provavelmente vai se assistir em 2009 é um arrefecimento da atividade econômica, mas o Brasil não registrará taxas negativas. Ferraz acredita que o país tem condições de aguentar os efeitos da crise pela ‘blindagem de cautela’ construída a partir de seu passado negro. ‘Na economia real, o que é mais importante e que nos dá menos fragilidade na crise é que as empresas brasileiras e o consumidor aprenderam a viver com a incerteza e isso é um ativo que nós temos com relação aos demais países, que é muito importante’.


Para 2009, a expectativa do banco é financiar R$ 110 bilhões em projetos. Ferraz informou que em 2008 o governo brasileiro colocou recursos necessários para o banco e que para este ano 70% já estão garantidos. ‘Curiosamente, estamos entrando em 2009 numa situação muito melhor em termos de previsibilidade que no ano passado. Temos o primeiro semestre garantido e já estamos começando a armar para o segundo e para 2010.’ Para Ferraz, o banco está preparado para ajudar as empresas nessa travessia. ‘Estamos construindo uma agenda de não-crise para os próximos dois anos.’


Até 2010, as prioridades são infra-estrutura, ampliação de capacidade produtiva, inovação, desenvolvimento regional e sustentabilidade ambiental. O banco acaba de criar uma área de ambiente. ‘O que interessa é menos conjuntura e mais estrutura’, diz. Para ele, o BNDES não distorce sua finalidade ao dar capital de giro às empresas na crise. ‘Não podemos correr o risco de ter um corpo estendido no chão.’ A seguir, os principais trechos de sua entrevista.


Valor: A crise aqueceu a demanda no banco por crédito? 
João Carlos Ferraz:
Não é a crise de crédito que está aquecendo a demanda. Ela já estava aquecida. O BNDES reflete o que está acontecendo na economia real, o investimento na economia. O país estava passando por um processo forte de crescimento. Os dados que saíram no terceiro trimestre mostraram o investimento crescendo 19% e o PIB, 6,8%.


Valor: O Brasil estava no ápice do crescimento? 
Ferraz: Nós estávamos em uma trajetória ascendente . Ela deve permanecer. Estamos ainda em uma trajetória ascendente com relação ao investimento (entendido como formação bruta de capital fixo). E com relação ao PIB, estamos no caminho de crescimento para um patamar mais alto dentro de algum tempo. Mas o que vamos assistir em 2009 é um arrefecimento. Certamente continuaremos com taxa de crescimento positiva.


Valor: Como isto rebate no BNDES? 
Ferraz:
O banco duplicou em três anos seu desembolso, que saiu de R$ 47 bilhões em 2005 para R$ 90 bilhões este ano. As aprovações saíram de R$ 54 bilhões para R$ 110 bilhões. Em 2009 teremos trunfos para enfrentar um mundo cheio de incerteza que são os investimentos em infra-estrutura. Principalmente os investimentos em energia e estrada. Esses investimento têm compromisso, pois são concessões públicas ou estão associados ao PAC, que tem uma parte de orçamento da União e há uma decisão clara nesse sentido. Há disposição política de irrigar, via BNDES, os investimentos de infra-estrutura. Financeiramente eles estão protegidos e vão continuar. Isto é um trunfo forte para garantir o crescimento.


Valor: E como vocês pretendem pilotar isto? 
Ferraz:
A infra-estrutura é um dos trunfos da economia brasileira. O outro trunfo é o tamanho do mercado interno. O momento que estávamos atravessando tinha a massa salarial crescendo de maneira sustentável. Ela passa de R$ 20 bilhões na média de 12 meses no fim de 2004 para R$ 27 bilhões até setembro de 2008, em um crescimento constante. O consumo das famílias também estava crescendo trimestre a trimestre. No terceiro trimestre cresce 7,3%, e, em um movimento mais estrutural, o Índice de Gini vem caindo. Então, isso dá uma base que não é só no consumo da classe média. Nós estamos ampliando a base de consumo. Então, podemos atravessar um período de incerteza onde estes dois fatores – infra-estrutura e consumo de massas – podem puxar o crescimento brasileiro nos próximos anos. A engenharia pesada continua, os bens de capital pesados continuam, o consumo de não duráveis, aquele que não é afetado por crédito, deve continuar. Tanto que o Ministério da Fazenda, nas medidas em que está adotando, está mirando o consumo. Há uma estratégia oficial que está se desenhando de favorecer o desenvolvimento produtivo via demanda interna.


Valor: Ou seja, o país continuaria mantendo este modelo ? 
Ferraz:
Isso. Estamos continuando com uma tendência que já existia. Se você olhar, relativamente ao que acontece fora, a vantagem brasileira é com relação à fragilidade. O Brasil tem menos fragilidade por causa do nosso passado negro e das vacinas que nós tomamos, como o autofinanciamento, as reservas, a taxa de juros, que dá uma base de defesa. Nos Estados Unidos, por exemplo, não tem mais onde baixar o juro. O Brasil ainda tem esse espaço. Na economia real, o mais importante é que as empresas brasileiras e o consumidor brasileiro aprenderam a viver com incerteza. Isto é um ativo que nós temos com relação aos demais países, que é muito importante.


Valor: De onde vem então a nossa vantagem face ao cenário atual? 
Ferraz:
Nós temos uma combinação de fundamentos econômicos, tamanho da economia e diversificação da estrutura produtiva que nos dá vantagens para aguentar um período de muita incerteza. Nós temos que explorar bem essas vantagens, com toda a prudência. E nos dá vantagem, inclusive se você olhar, relativamente à China.


Valor: Como assim? 
Ferraz:
A crise nos pegou em aceleração, principalmente com relação ao consumo de massa e com relação à infra-estrutura. Foi um esforço de dois a três anos para que os investimentos em infra-estrutura pegassem. A China estava desacelerando tanto o consumo interno e agora eles estão tentando arremeter o avião chinês trocando sinais. E lançaram agora este pacote de US$ 650 bilhões. Você vê que eles têm que arremeter um monstro que estava pousando. E nós já estamos no ar.Continuamos no ar, numa altitude mais baixa. Há consenso que o Brasil deverá ser uma das economias menos afetadas nesta turbulência. Não é uma ilha de tranqüilidade. Acho que o nível de pragmatismo, de realismo das autoridades públicas hoje é muito maior que o do passado.


Valor: Quais são as prioridades do BNDES para 2009? 
Ferraz: As prioridades deverão continuar a ser infra-estrutura, ampliação de capacidade produtiva, desenvolvimento regional com destaque para Norte e Nordeste, inovação e sustentabilidade ambiental. Agora, a ampliação de capacidade produtiva, principalmente do setor privado, que vinha muito forte, provavelmente deve desacelerar. As empresas estão com paradas técnicas. Na indústria, os projetos que não começaram não deslancharão, mas o que foi iniciado deve ser terminado. Agora, vamos continuar crescendo na diversidade com relação ao investimento. E aí entram novas indústrias mecânicas, mantém-se – com uma certa tendência a estabilidade dado o boom que ocorreu – toda a cadeia do açúcar e álcool e o setor de petróleo deve crescer tendo em vista do pré-sal.


Valor: E o que tudo isto vai exigir do BNDES? 
Ferraz:
É mais inteligência no sentido de dar mais força aos investimentos complementares. Petróleo e gás temos que dar força, fortalecendo os fornecedores da cadeia. Antes, era um setor muito aquecido no exterior. Agora, esse negócio vai esfriar. Então, se abre uma janela para atrair esses investimentos para o país, atrair novas empresas, vamos precisar de mais estaleiros, mais gôndolas, mais válvulas, mais tudo. Dado o arrefecimento internacional, ele indica duas coisas: o custo do investimento que estava muito forte e inflacionado vai cair. E o outro é que vão se abrir janelas de oportunidade para atrair investimentos de fora e vamos trabalhar para isso. Este é o lado mais estratégico. E do ponto de vista conjuntural o banco tem que ajudar a travessia.


Valor: De que maneira o BNDES fará esta ajuda? 
Ferraz:
Em setembro já entramos fazendo exportação (crédito à exportação para as operações de pré-embarque). Injetamos recursos para o pré-embarque. Naquele momento ninguém sabia o que estava acontecendo e o banco entrou. E agora o mercado está acalmando porque o ACC está entrando. Entramos como substituição no momento que era necessário e depois saímos fora.


Valor: E agora vocês estão financiando giro? 
Ferraz:
Há uma supercautela no sistema bancário, há uma necessidade de irrigar, irrigamos e terminada nossa tarefa, saímos fora. Nós não somos banco de giro, somos banco de desenvolvimento. E se há uma necessidade de aguentar a economia real por giro, se não há outra fonte, o BNDES participa. É um programa com prazo limitado.


Valor: O sr. acha que o BNDES está bonificando demais o setor privado? 
Ferraz:
Isto depende muito do conhecimento específico da situação de cada empresa. O que você não pode fazer é esperar ter um corpo estendido no chão. O corpo estendido no chão da crise foi o Lehman Brothers. E o Lehman Brothers é visto como o erro fatal. O governo americano não deveria ter deixado acontecer. Houve quebra de expectativa e todo mundo travou. É muito difícil você calcular em que ponto efetivamente existe uma demanda real por giro, que o cara está sem caixa e precisa. De maneira genérica, a sinalização para o ministro é assim: ‘Não haverá corpo estendido no chão.’ Então, isso é muito importante. No sistema capitalista há comportamento oportunista. O que é necessário é que a competência das agências financeiras públicas ou privadas faça análises criteriosas. No nosso caso, estamos usando uma lupa. Não tenho medo com relação à possibilidade de o banco emprestar para quem não precisa. Nisso, o banco tem a competência. O que nós esperamos é que este período de transitoriedade passe rápido para que o setor bancário volte a fazer as coisas que ele tem que fazer, como financiar a produção.


Valor: A expectativa para 2009 é ter R$ 110 bilhões de demanda. Como é que fica isto? 
Ferraz:
O BNDES não teve problema de funding nesta administração. O governo brasileiro colocou os recursos necessários para o BNDES. São engenharias as mais diversas, então não é só recurso do Tesouro. Este ano tem aporte de Banco Mundial. Está muito bem encaminhado e não sei se chega aos US$ 3 bilhões. Curiosamente, nós estamos entrando em 2009 em uma situação muito melhor em termos de previsibilidade de recursos do que o ano passado. Não tenho números sobre caixa do banco. Mas não teremos problema no primeiro semestre. Os 70% que o Luciano (Coutinho, presidente do banco) mencionou nos carregam tranqüilamente. Então, o que já estamos começando a armar é o segundo semestre de 2009 e 2010. É isso que interessa.


Valor: O Luciano Coutinho disse que o banco vai captar na China, na Ásia. Como é isto? 
Ferraz:
Isso é outra coisa. É o banco fazer parcerias estratégicas com fundos de investimento para que esses fundos apliquem no país. Curiosamente, a partir de novembro cresce o número de consultas ao banco de investidores institucionais querendo conhecer mais o BNDES, conhecer mais o país. Está crescendo o interesse internacional de investidores no país como asiáticos, europeus.


Valor: Como seria esta parceria do BNDES com estes investidores? 
Ferraz:
Eles ainda vêm muito em consulta. O que vai ser necessário é montar engenharias financeiras diferentes basicamente para fundos de investimentos. Esse é que seria o mecanismo. Fundos de participação, os FIPs. Isso é uma coisa que a gente vê como o espaço que deveríamos trabalhar para frente, 2009, 2010, e isso depende muito de montarmos com muita paciência.


Valor: Como você vê o banco em 2009 e 2010? 
Ferraz:
Nós esperamos que essas linhas de emergência de exportação e giro deixem de ter importância. Seremos um banco de um novo patamar de desembolso na faixa dos R$ 90 bilhões, vamos continuar sendo um banco de financiamento de expansão de infra-estrutura e de capacidade produtiva, cada vez mais de inovação, desenvolvimento local e regional e sustentabilidade ambiental, que são as jóias que precisamos trabalhar. E um banco diferente em termos dos instrumentos e, principalmente, do perfil dos técnicos. Nos próximos dois anos a base técnica do banco será modernizada – falo dos instrumentos, a TI do banco será modernizada – e o banco terá outra demografia. Os grandes desafios para nós serão a inovação, o desenvolvimento local regional e o desenvolvimento ambiental.


Valor: Como serão enfrentados esses desafios? 
Ferraz:
Inovação é bem conhecida. O setor privado, a CNI em particular, está querendo tomar o protagonismo de fazer um movimento pela inovação. O desenvolvimento local e regional é outra preocupação. Nós deveríamos ter um olhar mais integrado do desenvolvimento. No entorno de um grande projeto é necessário olhar saneamento, fortalecer pequenos produtores locais, erguer hospitais, estradas etc. Esse é um desafio não só para o BNDES, mas de coordenação entre agências públicas.


Valor: E o tema de sustentabilidade ambiental? 
Ferraz:
É efetivamente um desafio que temos como cidadão, como empresa, como país. As políticas que o país estão anunciando de mudanças climáticas e de desmatamento são muito ousadas internacionalmente. A novidade é que está sendo criada uma área de meio ambiente. O nível de prioridade no banco vai levá-la a crescer. O Fundo Amazônia será administrado pelo banco. São iniciativas a desenvolver e fortalecer na frente. É uma agenda não-crise. É uma agenda de sustentabilidade do desenvolvimento brasileiro, que é o que interessa ao BNDES. Menos conjuntura e mais estrutura. (Vera Saavedra Durão)

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