Baixa tensão – Análise publicada no Valor Econômico

20 agosto 17:34 2009

Confira a análise publicada no Jornal Valor Econômico:



Por Josette Goulart, de São Paulo


A estabilidade regulatória vivida pelas empresas elétricas desde o advento das novas regras do setor pode agora ser medida pelos dados de seus balanços, passado quase dez meses do início do forte aperto de crédito internacional. Nem a crise histórica foi suficiente para alterar a trajetória de queda do custo de dívidas dessas empresas. Isso porque nos anos de farta liquidez elas trocaram seus passivos em dólar pelo custo da taxa básica de juros e ainda fixaram pequenos prêmios de risco. Com caixa forte, não precisaram rolar dívidas no momento crítico da crise. E agora podem se beneficiar da queda da taxa de juros para alavancar seus balanços e reforçar investimentos.


Um estudo feito pela Fitch Ratings mostra que desde 2006 empresas como a CPFL e a Tractebel elevaram fortemente seus endividamento, em cerca de 35% e 50% respectivamente, mas foi feito em menor proporção do que seus investimentos, principalmente em geração, e ainda assim continuaram pagando índices elevados de dividendos.


Isso dá uma mostra, segundo o diretor sênior de avaliação de empresas da Fitch, Ricardo Carvalho, da consolidação da forte geração de caixa que as empresas do setor hoje dispõem. E além disso, mesmo durante a crise não tiveram problemas em refinanciar suas dívidas. A CPFL, por exemplo, tem hoje um custo real de 7%, o menor nível desde a criação de sua holding em 2002, segundo o presidente, Wilson Ferreira Júnior. Nominal o custo ainda chega na casa dos 11%. ‘Mas ainda não reflete toda a queda da Selic [taxa básica de juros] deste ano’, diz Ferreira. Em dezembro do ano passado, a Selic era de 13,75% ao ano e chegou agora a 8,75%.


A Tractebel foi a empresa que abriu o mercado de emissão de debêntures, em abril deste ano. Ainda como reflexo da crise, o custo ficou em 117% do CDI, mais que os 104% do ano passado. Mesmo assim o custo nominal de toda a dívida da empresa é de 10,5%, inferior ao que foi observado em 2007 e 2008. ‘A TJLP [que corrige as dívidas com o BNDES e correspondem a aproximadamente 50% do endividamento da empresa] também caiu no período e certamente será um importante pilar nas decisões de investimento, como a nossa provável participação no leilão de eólicas marcado para novembro’, disse Manoel Zaroni, presidente da Tractebel.


O presidente da Equatorial Energia, Carlos Piani, também diz que hoje a empresa tem um nível de alavancagem de 1,5 vezes a capacidade de geração de caixa. ‘Nesse cenário de juros baixos acredito que possamos chegar a um nível de 2,5 vezes’, diz Piani.


O diretor da Fitch, Ricardo Carvalho, explica que para o setor elétrico essa é uma realidade possível porque o caixa não foi afetado e os serviços da dívida reduziram com a queda do CDI. Assim gastam menos caixa para pagar sua dívida, consequentemente podem se endividar mais. ‘É diferente de outros setores que também se aproveitaram da liquidez farta dos anos de 2007 e início de 2008 para tomar crédito barato, mas agora tiveram que pagar prêmio de risco em meio a crise’, diz Carvalho.


No ano passado, quando as elétricas tiveram as revisões negativas de suas tarifas, o caixa não foi afetado porque o consumo de energia foi muito forte. Neste ano, o consumo caiu, mas os reajustes tarifários foram fortes. Assim uma coisa acaba compensando a outra. Junta-se ainda a isso o fato de as dívidas das elétricas, com raras exceções, estarem hoje em reais.


Cerca de 95% da dívida da Light, por exemplo, está indexada à moeda brasileira e 75% ao custo do CDI. O vice-presidente da companhia, Ricardo Levy, diz que há três anos essa estratégia foi adotada porque a empresa já vislumbrava o cenário de forte queda dos juros brasileiros. Hoje a Selic está em 8,75% ao ano. ‘Com o CDI neste nível o nosso custo médio ao ano que chegava a 15% há três anos, hoje está na casa dos 9%’, diz Levy. ‘Se há três anos nosso conselho aprovava investimentos com juros a 15%, agora é muito mais fácil’.


A percepção de risco dos investidores também caiu junto com o CDI. No mês passado, ainda com reflexos da crise, a Light fez uma emissão de debêntures a um custo de 115% do CDI, o mesmo que obteve em uma emissão feita em janeiro de 2007 quando o mercado era muito mais líquido. Com o custo do CDI em queda, isso reflete diretamente na companhia.


A Cemig foi diretamente beneficiada e reportou no segundo trimestre deste ano uma redução de 16,2% nas despesas com encargos de empréstimos e financiamentos. Segundo explicou a empresa, parte foi em decorrência de amortizações de dívidas realizadas ao longo do ano passado mas boa parte também se deveu a menor variação do CDI em 2009 (principal indexador dos contratos). Um relatório do Banco Santander de março deste ano já apontava a Cemig como uma das principais empresas a ser beneficiada com a queda dos juros. Cerca de 60% da dívida da empresa estava indexada ao CDI. O relatório ainda apontava como principais beneficiadas em função do perfil de suas dívidas a EDP, CPFL e Light.


A EDP fechou o primeiro semestre do ano com 48% de sua dívida indexada ao CDI. Mas a empresa também se beneficiou da queda da TJLP, que responde por 37% de sua dívida. A taxa de juros de longo prazo do BNDES caiu de 6,25% para 6% ao ano. Com uma dívida bruta de R$ 3 bilhões, o custo médio para a companhia caiu de 11,4% em dezembro, para 10,4% ao ano registrado no final de junho.


Mas neste primeiro semestre do ano, é a AES Eletropaulo que tem o caso mais curioso. Com cerca de 50% de sua dívida atrelada ao IPDI (índice de inflação em queda desde o início do ano), hoje seu custo é menor que o CDI (92% do certificado de depósito interbancário). Isso acontece porque cerca de R$ 2,3 bilhões de sua dívida é com o fundo de pensão dos funcionários da Cesp. Dívida herdada na época da privatização e que é indexada ao índice de inflação com vencimento no fim da concessão. A outra parte da dívida é indexada ao CDI, e no ano passado a empresa fez um refinanciamento em que pagou um prêmio de 0,95% ao ano, reduzindo seu custo. O presidente da AES no Brasil, Britaldo Soares, diz que toda a dívida foi refinanciada antes da crise e o primeiro vencimento acontece somente no próximo ano, quando vence um bônus de R$ 474 milhões.


Mas com a queda do CDI, a AES agora estuda trocar a dívida da AES Tietê com a Eletrobrás, que está indexada ao índice de inflação e vence em 2013. No caso da Eletropaulo, não vale à pena a mudança em função do prazo da dívida.


Balanço: Correção dos créditos do financiamento de Itaipu gerou ajuste.


Fonte: Valor Econômico

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