Artigo publicado no jornal Valor Econômico discute expansão do parque gerador brasileiro

09 novembro 16:25 2009

O casamento


Por Chico Santos


O recente namoro entre a Eletronuclear, subsidiária da estatal Eletrobrás, responsável única, até agora, pela geração de energia elétrica a partir de urânio enriquecido no Brasil, e os governos dos Estados do Nordeste, que concorrem a sediar as duas usinas termonucleares previstas para serem construídas na região até 2030, é um sinal dos tempos. No século passado, sob o simples argumento de estar mais próxima aos três maiores centros de consumo de energia do país – São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais -, o regime militar decidiu que a paradisíaca praia de Itaorna, em Angra dos Reis (RJ), era a melhor localização para a Central Nuclear Almirante Álvaro Alberto, que vai agora para sua terceira usina, e pronto. Não houve namoro e nem mesmo casamento. No máximo, uma convivência sob o mesmo céu, pontuada de rusgas.


Santa democracia, que debate, convence e tolera! E é bom que o Brasil seja convencido das vantagens do uso da energia nuclear e aprenda a tolerar e a conviver com suas desvantagens, como aprenderam, há muito tempo, praticamente todos os povos de melhor nível de vida do mundo. Isto porque, esgotada a dádiva natural do nosso enorme potencial hidrelétrico, não há à vista outra alternativa de combustível que não agrida a camada de ozônio, capaz de continuar fornecendo a energia elétrica necessária para que o Brasil cresça contínua e aceleradamente (com distribuição de renda). E sabemos que, sem crescer rápido e distribuir, ficaremos cada vez mais longe de saber um dia o verdadeiro significado da expressão ‘qualidade de vida’.


Sinal dos tempos, até o físico Luiz Pinguelli Rosa, diretor da Coppe/UFRJ, respeitado oposicionista da expansão do uso da energia nuclear no Brasil, já admite manter ‘uma posição crítica, mas não radical’. Não ser radical no vocabulário do irrequieto cientista não o impede de dizer que considera ‘uma das maiores burrices nacionais’ admitir a possibilidade de trocar aproveitamento hidrelétrico por construção de usina nuclear. Pinguelli ressalta que, além de cara, a energia nuclear permanece com o grave defeito de produzir um perigoso lixo, cujo destino definitivo até hoje ninguém descobriu qual pode ser, e menos ainda o Brasil.


O físico defende que o Brasil deve manter o foco no aproveitamento hidrelétrico, mesmo sabendo que a partir de agora será impossível construir reservatórios de água de grande porte, diante das restrições ambientais. Não fazer grandes reservatórios significa, por exemplo, que a futura usina de Belo Monte, no rio Xingu, terá turbinas para gerar 11 mil megawatts de energia, mas só vai poder assegurar, na melhor das hipóteses, pouco mais de 4 mil megawatts médios. É a chamada usina a fio dágua, que funciona segundo o capricho do regime do rio.


Para compensar a nova limitação das águas, Pinguelli receita energia eólica na veia, ainda mais sabendo-se que os ventos no Brasil são mais fortes e constantes no período seco dos rios, permitindo uma complementaridade entre as duas fontes. Baseado nessa receita, ele acha que construir quatro usinas, além de Angra 3, até 2030 no Brasil é muito. Mas reconhece que ’em algum momento’ isso vai ser necessário, por força do aquecimento global.


Segundo os cálculos da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), esse ‘algum momento’ ficará bem evidente a partir de 2025, quando o potencial hidrelétrico disponível já não cobrirá a base (energia segura) de geração adicional. A EPE está trabalhando em uma revisão do Plano Nacional de Energia (PNE 2030), aquele que prevê a construção de quatro novas usinas nucleares de 1.000 megawatts cada até 2030 (além de Angra 3, com 1.300 megawatts), duas no Nordeste e duas no Sudeste, provavelmente nesta ordem.


O presidente da EPE, Mauricio Tolmasquim, acha que é muito cedo para dizer o que virá nessa revisão do PNE. Admite que pode haver necessidade de mais usinas nucleares após 2030, mas acha que é muito cedo para decidir ou para dizer. Na verdade, percebe-se que há todo um cuidado para tornar palatável aos setores da sociedade que ainda resistem a uma solução que parece inevitável.


Por enquanto, tudo bem, considerando-se os parâmetros atuais de tolerância a emissões e a intervenções no curso natural dos rios. Segundo os grandes números da EPE, o Brasil vai precisar de novos 130 mil megawatts de capacidade de geração até 2030. Destes, 87 mil (67%) ainda devem vir de fontes hidrelétricas, se tudo correr como esperam os planejadores da matriz energética. Hoje, a hidreletricidade responde por cerca de 82% da capacidade elétrica instalada brasileira, prevista para fechar 1009 em 107,2 mil megawatts. Os 5.300 megawatts das cinco novas usinas nucleares programadas representarão apenas 4% da capacidade adicional.


Conforme explica Tolmasquim, é uma participação apenas estratégica, que visa a impedir o desmantelamento da capacidade técnica e dos esforços em pesquisa no setor, que já vinham sendo detectados com a paralisação do programa nuclear após a entrada em operação de Angra 2, em 2000, 18 anos depois do início, em caráter experimental, da geração de Angra 1, em 1982.


No mundo, a atividade em torno da energia nuclear é muito mais frenética. Com 436 reatores operando em 31 países, gerando cerca de 372,2 mil megawatts, há 53 novos reatores em construção neste momento em 15 países. Estados Unidos (104 reatores) e França (58 reatores), entre outros, retomam os investimentos no setor. A China, com uma matriz elétrica hoje baseada no poluente carvão, planeja chegar a 2020 gerando 70 mil megawatts de energia nuclear (o Brasil terá, no máximo, 4,2 mil megawatts). Há também enormes esforços de pesquisa na busca de mais eficiência e segurança. Chernobyl e Three Mile Island nunca mais!


O que ocupará o lugar da hidreletricidade após 2025 na expansão do parque gerador brasileiro? Segundo Tolmasquim, a energia eólica é boa, mas como complemento. A biomassa, idem. O gás é muito caro. O carvão é maldito. A solar tem problema de estocagem. A das ondas e marés ainda é experimental… Tudo indica que os atuais namoros vão dar em muitos casamentos de direito e de fato.


Chico Santos é repórter da sucursal do Rio. O titular da coluna, Sergio Leo, está em férias.


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Fonte: Valor Econômico

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