Especialistas consideram que sistema é seguro

12 novembro 16:15 2009

Mesmo diante de um blecaute que deixou os Estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo e Mato Grosso do Sul completamente às escuras por horas durante a noite de terça-feira e a madrugada de ontem, especialistas importantes do setor elétrico são enfáticos ao dizer que o Brasil tem um sistema seguro.


Dezenas de ocorrências de desligamentos automáticos de linhas de transmissão e unidades geradoras são registradas frequentemente nos boletins do Operador Nacional do Sistema, mas os sistemas são rapidamente ajustados e eventuais cortes de energia duram minutos. Não são sequer noticiados. Neste ano, por exemplo, duas linhas de Itaipu já tinham saído do sistema sem causar blecautes.


Na terça-feira passada foi diferente porque as cinco linhas de transmissão que transportam a energia de Itaipu deixaram de funcionar por um evento considerado atípico. Duas dessas linhas são de corrente contínua e operam na mesma frequência que a energia transmitida ao Paraguai. Saíram de operação por sobrecarga dos sistemas, que por proteção se autodesligam. O problema ocorreu nos outros três circuitos que sofreram um curto por descargas elétricas atmosféricas, segundo a informação oficial do governo .


Ocorre que, sem as três linhas em operação, toda a usina hidrelétrica de Itaipu saiu do sistema. Como ela é a usina responsável por fornecer 25% da energia do país, principalmente ao Sudeste, ao sair de operação ela tem poder de deixar a região às escuras. Sorte que foi durante a madrugada.


A preocupação do ONS com Itaipu vem aumentando nos últimos anos. Mas o operador já verificou que mesmo com duas das principais linhas de Itaipu desligadas é possível evitar blecautes no Sudeste. O ONS tem até mesmo um esquema especial de proteção para Itaipu que foi colocado em teste em 4 de julho desse ano. Está registrado nos boletins do ONS que nesse dia houve a queda de duas das linhas da usina e para proteger o sistema e evitar a sobrecarga foram tiradas de operação turbinas de Itaipu e de Tucuruí, distante 3.500 quilômetros de Foz do Iguaçu. A necessidade de reduzir a geração também em Tucuruí é para evitar que as linhas que ligam o Norte ao Sul sofram sobrecarga e causem um apagão em série nestas regiões.


O ex-presidente da Companhia de Transmissão Paulista e professor da Universidade de São Paulo, Sidnei Martini, lembra que no ano passado quando ainda estava na presidência da Cteep, também aconteceu de duas linhas de transmissão que ligam Itaipu ao Sudeste terem sido desligadas automaticamente por problemas meteorológicos. ‘Lembro que pensamos: nosso sistema é mesmo seguro pois conseguimos segurar a energia de Itaipu só com uma linha operando’, disse Martini. ‘Se fosse um sistema frágil teríamos tido muitos apagões nestes dez anos.’


No boletim interno do ONS (o jornal Ligação) de julho deste ano, um técnico do ONS reportava que o órgão estava se empenhando em um esquema especial de proteção para Itaipu e que todo esse empenho era necessário pela frequência com que ocorrem desligamentos desses dois circuitos próximos a usina. Isso preocupa uma importante fonte do setor, mas que lembra que são com apagões como o que ocorreu essa semana que os sistemas são aprimorados.


É por causa de seu poder de causar um blecaute caso saia de operação que a usina de Itaipu é vista como a infraestrutura mais crítica do país. Mas foi somente no ano passado que as autoridades brasileiras começaram a elaborar um plano nacional de segurança de suas infraestruturas para evitar ataques ou ter um plano de contingências que possa resolver rapidamente a situação e dar segurança a população que fica desprotegida.


O vice-presidente da Rede Energia, Sidney Simonaggio, destaca que apesar de uma grande parte do Brasil ter sido atingida, rapidamente os sistemas do Nordeste, Norte e Sul foram retirados do sistema interligado e a energia rapidamente foi restabelecida. Se fosse um sistema frágil, segundo Simonaggio, todo o país teria ficado no escuro.


Ao todo 18 estados foram atingidos. O apagão teve início às 22h13. Mas as 22h29, o Sul do país já estava religado. Em menos de meia hora, os estados do Norte e Centro-Oeste também. Antes das onze da noite, o Nordeste também teve sua situação regularizada. ‘Nosso sistema não é frágil’, diz José Cláudio Cardoso, presidente da Associação das Transmissoras.


A mesma frase foi usada pelo ex-diretor geral da Aneel, Jerson Kelman. Lembrou ainda Kelman que nenhum sistema é infalível e que o Brasil tem sim o risco do sistema interligado, ou seja, de uma queda em série. Mas ao mesmo tempo é esse sistema que impede que a falta de água nas hidrelétricas em alguma região reflita em falta de energia em outra. O professor da USP Ildo Sauer diz que o problema não é falta de investimento, mas que o apagão reflete uma fragilidade na gestão do sistema. Alguns especialistas lembram que o fato de termos um sistema completamente automatizado também é muito suscetível a hackers. (Josette Goulart, de São Paulo)

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