Sobre lixeiros e ‘âncoras’

19 janeiro 16:30 2010

Confira o artigo escrito por Shakespeare Martins, metalúrgico e dirigente nacional da CUT    


‘Que merda! Dois lixeiros desejando felicidades do alto das suas vassouras. Dois lixeiros … O mais baixo da escala do trabalho.’ Boris Casoy


O ‘âncora’ do Jornal da Band ofereceu, sem querer, uma ótima oportunidade para a qualificação do debate sobre o significado que tem o trabalho e as profissões para  a organização social . De quebra ele ofendeu a todos trabalhadores de empresas de  asseio e conservação que prestam serviços públicos e privados, e parte dos empregados domésticos também. Apóio as justas e necessárias reações das entidades representativas dos garis, mas é preciso fazer ‘limonada com esse limão’. Ou, pelo menos, uma caipirinha. 



Primeiro, é até bom que Boris Casoy demonstre ter uma escala e valor das profissões. Se o ‘lixeiro’ é o mais baixo da escala do trabalho, que profissões seriam as intermediárias? E as mais altas, na opinião dele? Segundo, como classificar o trabalho do ‘gari’ numa sociedade marcada pelo consumo de coisas supérfluas, de descartáveis e de bobagens de todos os tipos?


Estas perguntas nos fornecem um ótimo caminho para refletir sobre o tema, num momento em que muitos festejam uma possível perda de sentido do trabalho, como algo que identificasse classes sociais e projetos gerais de sociedade. Há intelectuais que defendem, inclusive, que o trabalho deve ser descartado como referência teórica, política, cultural, econômica e ideológica.


Porém, o citado jornalista quando rebaixa o gari ao último nível da escala de trabalho, acaba – mesmo que negativamente – classificando e atribuindo valores a outras atividades, resgatando, assim, a posição estratégica do trabalho na organização da sociedade. É verdade que ele não disse quais as profissões que ele acha de alto nível. Seria um banqueiro, um presidente de uma gigantesca mineradora, um executivo-chefe de uma montadora de automóveis, um presidente de um conglomerado como o grupo Votorantim?


Se for isso, e acredito que ele pense assim, temos opinião oposta à dele. O trabalho é importante sim: só que a turma do ‘topo’ na escala do trabalho (como raciocina Casoy) é perfeitamente dispensável para o mundo funcionar. Se o presidente da Vale, por exemplo, resolver velejar, esquiar, surfar, afastando-se da empresa por uma semana, os operários, técnicos, engenheiros, o pessoal do setor administrativo, incluindo aí o pessoal da limpeza e serviços gerais, ‘tocam’ a empresa muito bem.  Se um banqueiro, em face de uma crise de hemorróidas não for trabalhar, os bancários dão conta de tocar o banco.


Porém, se trabalhadores da mineradora e do tal banco resolvessem parar de trabalhar uma semana, o mais alto executivo, mesmo que apoiado por seus melhores assessores, não toca suas atividades. A Vale pára e o banco também. Ou seja, aqueles que estariam, na opinião de Casoy, no topo da escala do trabalho, para nós  são dispensáveis, em se tratando de ‘fazer o mundo funcionar’. São parasitas. E isso não é uma ofensa particular a ninguém. O caráter parasitário do ‘chefe’ é dado na própria estrutura produtiva do capitalismo: o executivo-chefe de uma empresa é um funcionário do capital (que pode ser descartado a qualquer momento), não agrega valor ao ‘produto final’ de sua atividade, é remunerado com base no trabalho alheio e anônimo de milhares de pessoas que ele nem sequer conhece e, principalmente, suas atividades gerenciais podem ser substituídas pela ação coletiva dos trabalhadores. A experiência da autogestão comprova isso.


Assim, o âncora do jornal da Band acerta em confirmar que há uma escala social de importância na ordem do trabalho, para funcionar a sociedade. Só que erra ao desqualificar os garis e, indiretamente, valorizar os ‘parasitas que se nutrem do nosso sangue’ e do nosso suor.


Mas, qual é o papel e a importância dos trabalhadores de limpeza, asseio e conservação na produção de uma vida mais saudável? Um médico, professor da UFMG, Apolo Lisboa, certa vez disse que o gari deveria ser reconhecido como ‘um dos mais importantes trabalhadores da área de saúde’. Ele tem razão. Ah, e o gari é também um profissional ecologista e paisagista. Alguém teria dúvida disso?


É só fazer um teste: realizemos uma greve nacional, de uma semana, de todas as trabalhadoras e trabalhadores que varrem ruas, praças, estabelecimentos públicos e privados, residências, condomínios, que recolhem lixo (incluindo catadores), os que o transportam para os aterros e lixões etc. E que seja feita também, simultaneamente, um greve de ‘âncoras’ do jornalismo brasileiro. Quem fará mais falta à saúde, ao meio ambiente e à paisagem das cidades? A ‘classe’ dos âncoras ou a dos garis?


Ao invés de obrigar o Sr. Boris Casoy a fazer uma retratação forçada, a TV Bandeirantes poderia fazer uma limonada com esse ‘limão’: abrindo um debate sobre o papel do trabalho na construção da riqueza de nosso país. Quanto ao jornalista, desejo um feliz 2010 e que muitas vassouras varram os conceitos reacionários de seu cérebro.

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