Serra abandona a privatização da Cesp

12 fevereiro 19:09 2010

Depois do fracasso de três tentativas de venda, governo de SP decide não vender a CESP. Leia abaixo uma sequência de matérias publicada nesta quinta (11) pelo Jornal Folha de S. Paulo


Depois de paralisia de dez anos, governo paulista autoriza empresa a retomar planos de expansão da produção de energia. Depois do fracasso de três tentativas de venda, estatal mira modelo da Cemig e pode se expandir fora de SP, diz novo diretor-presidente
 
A Cesp (Companhia Energética de São Paulo), controlada pela Secretaria da Fazenda do governo paulista, abandonou de vez o plano de privatização, sob o qual ficou amarrada durante toda a década passada.


O governador José Serra é pré-candidato à Presidência pelo PSDB, e o PT deve usar a questão das privatizações na campanha, como fez em 2006.


Serra ordenou que a Cesp retome planos de investimento e -ainda que de forma tímida- siga os passos trilhados pela Cemig, a estatal mineira.
A Cemig é hoje uma das companhias que mais investem na expansão da capacidade de produção. O sinal para a mudança de rumo foi dado pelo governo de São Paulo há três semanas, quando o Conselho de Administração da Cesp indicou Vilson Daniel Christofari como novo diretor-presidente. Ele assumiu o posto em 19 de janeiro, no lugar de Guilherme Augusto Cirne de Toledo, homem com longa história na Cesp, responsável por todo o plano de privatização da companhia.


A avaliação do mercado é a de que a Cesp ainda poderia ser privatizada em 2010, a partir do momento em que o governo federal renove as concessões das suas duas principais usinas, Ilha Solteira e Jupiá.


Como a Folha já antecipou, o governo federal já tomou a decisão de renovar as concessões que vencem nos próximos anos. As usinas da Cesp cujas concessões vencerão nesta década respondem por mais de 60% de sua produção.


Segundo um ex-diretor da Cesp, uma eventual decisão de manter o plano de privatização poderia coincidir com o calendário eleitoral, algo que daria munição aos petistas, sobretudo quando uma companhia tão próxima quanto a Cemig prospera sob o controle estatal.


Investimentos
Fato é que o novo presidente tem agora mandato para retomar os planos de investimento, que começam de maneira muito tímida. ‘Vencida a fase da tentativa frustrada de privatização -e hoje esse é um assunto que não mais está sendo cogitado-, estamos retomando uma vida normal de uma empresa com uma série de anseios para o futuro’, disse à Folha Christofari, o novo diretor-presidente.


Segundo ele, a Cesp prospecta projetos em duas frentes. Pretende retomar estudos antigos para aproveitamento de pequenas centrais hidrelétricas no território paulista e avalia empreendimentos de fazendas eólicas também em São Paulo, sobretudo em áreas da própria companhia. Nesse retorno, entretanto, a direção da Cesp, hoje com 1.300 funcionários, terá limites estreitos para apostar em novos negócios.


‘Nessa primeira fase, serão empreendimentos de pequeno porte, que possam ser feitos sem aportes do Estado, que possam ser feitos equacionando os recursos de dentro da própria empresa, que tenham retorno do investimento e que não comprometam a distribuição de dividendos para os acionistas’, disse Christofari.


Ele classifica a primeira fase de retomada dos investimentos como uma ‘sinalização’ ao mercado e ao país de que a companhia, que teve papel central no modelo de investimentos maciços em construção de grandes hidrelétricas no país, está de volta aos negócios.


Segundo o novo diretor-presidente, essa nova posição tende a evoluir, não imediatamente, para o modelo da Cemig, com planos de investimento fora das fronteiras do Estado de São Paulo. (Agnaldo Brito)


 



  • Cesp considera participar de usinas na Amazônia

A nova direção da Cesp admite voltar a participar de empreendimentos de porte após a concessão da usina de Belo Monte (PA), prevista para abril.


Um alvo possível é o megaprojeto das cinco usinas do complexo hidrelétrico dos rios Teles Pires/Tapajós, além de outros empreendimentos na bacia Amazônica.


‘Neste momento, [grandes projetos] ainda não. A Cesp não vai participar de Belo Monte. Estamos estudando pequenos projetos para investimento dentro de São Paulo, o que não significa que, no futuro, quando os projetos das usinas dos rios Tapajós e Teles Pires -e outros na margem esquerda do rio Amazonas- forem colocados em licitação, a Cesp não se organize para participar’, afirmou o diretor-presidente, Vilson Daniel Christofari.


Segundo ele, a companhia pode se habilitar a fazer parcerias com foco em grandes empreendimentos fora de São Paulo, mas isso só poderá ocorrer depois de uma alteração da atual legislação. A Cesp não dispõe de autorização para associações. É um passo a ser dado no futuro, disse Christofari.


Renovação
A Cesp aguarda a renovação por mais 30 anos das concessões das usinas de Ilha Solteira e Jupiá para retomar a negociação de energia no mercado cativo (formado pelas distribuidoras de energia) e livre (formado pelos grandes consumidores).


A estatal tem cerca de 2.000 MW médios de energia que serão descontratados entre os anos de 2012 e 2013.


A Folha apurou que o governo federal já decidiu renovar as concessões, só não definiu o prazo. Christofari diz que a negociação dessa energia já deveria ter começado.


As duas usinas, pela atual regra do setor elétrico, terão de ser devolvidas ao governo federal em 2015, quando o contrato de concessão expira. Essa foi a razão pela qual fracassou a última tentativa de privatização da Cesp, em março de 2008.
‘Não acredito que o governo federal deixe de renovar as concessões, ainda que determine novas condições para tal. Mas [a renovação] não pode demorar, porque as companhias já deveriam começar a negociar a energia que será descontratada’, afirma Vilson Daniel Christofari, diretor-presidente da Cesp.


Estimativas do mercado indicam que nos próximos anos mais de 20.000 MW médios de capacidade efetiva de geração fiquem sem contrato até 2015, o que inclui não só a energia da Cesp, mas a de outras companhias, como Cemig, Copel, Chesf e Furnas.


É um grande volume de energia que ficará sem contrato. Como comparação, o Brasil registrou uma demanda por energia na semana passada equivalente a 70.000 MW médios. O volume de energia firme, que deixará de ter contrato por ocasião do fim das concessões, representa 28% dessa demanda recorde. (AB)


 



  • Enquanto a Cesp hibernou, Cemig se agigantou

Enquanto a Cesp hibernou durante a última década aguardando a privatização, a Cemig (Companhia Energética de Minas Gerais) converteu-se numa gigante do setor elétrico brasileiro, com investimentos em geração, transmissão e distribuição de energia.
A companhia mineira avançou ainda sobre o mercado de distribuição de gás natural canalizado, com a Gasmig, e até no setor de telecomunicações. Agora, além dos projetos fora de Minas Gerais, a Cemig lançou uma ofensiva internacional, com o primeiro projeto de linha de transmissão no Chile.


Hoje, a Cemig é uma organização com receita operacional líquida de R$ 16,4 bilhões, enquanto a Cesp registrou faturamento de R$ 2,47 bilhões, segundo número do relatório de 2008.


O plano estratégico da companhia mineira, controlada pelo governo do Estado de Minas Gerais, é alcançar a condição de primeiro ou segundo maior grupo de energia do Brasil em valor de mercado e deter 20% do setor elétrico brasileiro.


O crescimento da Cemig desde 2000 foi expressivo. A companhia dobrou o número de consumidores atendidos pela divisão de distribuição, de 5,1 milhões em 2000 para 10,5 milhões hoje. Em São Paulo, a companhia foi dividida em empresas de distribuição, transmissão e geração. Os ativos separados foram todos privatizados, restando apenas as seis usinas, as maiores no extremo oeste de São Paulo. (AB)

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