Luta pela redução da jornada

18 maio 16:40 2010


ABC abre Dia Nacional de Mobilizações e Paralisações com demonstração de solidariedade classista



No pátio da Mercedes-Benz, a partir das cinco da manhã, a primeira das atividades do Dia Nacional de Mobilizações e Paralisações da CUT, em defesa da redução da jornada semanal de trabalho, foi realizada e acompanhada com atenção por aproximadamente 6 mil trabalhadores que já conquistaram, no mínimo há mais de 10 anos, a desejada jornada semanal de 40 horas. Individualmente, talvez nem precisassem se preocupar com o assunto.



Traduzida como solidariedade, essa participação foi um dos destaques da assembléia realizada em São Bernardo na manhã desta terça. Desde que a Constituição de 1988 sacramentou a redução da jornada de 48 para 44 horas, diversos acordos foram fechados por categorias bem organizadas, o que resultou em casos como o de 70% dos metalúrgicos e metalúrgicas da base do ABC paulista, que trabalham menos que o previsto pela legislação. No entanto, essa não é a realidade da maioria da classe trabalhadora brasileira. Setores como comércio, serviços e construção civil, para citar alguns, continuam cumprindo jornadas mais extensas.


 Artur Henrique, presidente da CUT’Por isso é tão importante essa solidariedade de classe, essa demonstração de unidade em torno de uma bandeira comum. Mobilizações como a de hoje forçam, empurram outras empresas e setores e melhorar a qualidade de vida dos trabalhadores’, elogiou o presidente da CUT, Artur Henrique, sobre o caminhão de som. ‘Esse tipo de ousadia, de ir contra a opinião de amplos setores do empresariado, é que nos faz avançar’, completou.
Presidente da CUT-SP e trabalhador da Mercedes, Adi dos Santos Lima lembra que os mensalistas daquela fábrica conquistaram as 40 horas em 1990 e os horistas, em 1999. ‘Nosso lema aqui é 40 horas semanais, horas extras nunca mais’, diz. Ele explica que os 12 mil trabalhadores e trabalhadoras da Mercedes em São Bernardo, por terem experimentado os benefícios da redução da jornada, compreendem como essa conquista será importante quando estendida a todos, depois de aprovada a proposta de emenda constitucional que trata do tema: ‘Por isso esse engajamento’.



Outra razão é a consciência de que jornadas desiguais para cada região do País emperram acordos coletivos nacionais e facilitam a vida de empresários que querem explorar a mão-de-obra e apostar na estratégia da guerra fiscal, completou Sérgio Nobre, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. ‘A maior concorrente da Mercedes no Brasil é a Volkswagen Caminhões, em Resende, no Rio. Lá os trabalhadores recebem um terço do salário daqui e a jornada é de 44 horas. Isso aprofunda os desequilíbrios regionais e pode ser usado pelos patrões como um fator de intimidação contra aqueles que conseguem condições mais justas e dignas de vida e de trabalho’, afirmou.



 Em Diadema, onde a partir das 7 horas houve outra mobilização pela redução da jornada, incluindo paralisação de três horas, os trabalhadores da indústria de autopeças ainda trabalham 44 ou, na melhor das hipóteses, 42 horas.  Trabalhador da Dana há 10 anos, José Inácio Araújo, o Caramujo, conta que a empresa só diz aceitar a redução da jornada de segunda a sexta se os trabalhadores toparem trabalhar aos sábados, a despeito dos protestos e greves que a base já realizou. ‘Assim os trabalhadores não querem. Por isso é importante que a mudança seja sacramentada na lei’, disse Caramujo, que também é diretor do Sindicato.



Se não bastasse a diferença de tratamento a trabalhadores do mesmo setor e da mesma região, o descompasso entre a jornada nas montadoras e nas fábricas de autopeças tem outro componente negativo. É mais difícil otimizar a cadeia produtiva, combinando os turnos de trabalho entre as diversas fábricas, o que reduz a competitividade. Esta palavra é muito cara aos empresários, porém só é lembrada por eles na tentativa de desqualificar a luta dos trabalhadores e trabalhadoras.



Mais que incoerência, o discurso empresarial é falso. Artur Henrique lembra que nos últimos 20 anos a produtividade da indústria acumulou ganhos superiores a 100%, enquanto a redução da jornada traria um aumento de custo inferior a 2% para as empresas, algo que seria assimilado com facilidade. ‘Há mais de 20 anos, eles faziam as mesmas ameaças. A redução de 48 pra 44 ia trazer desemprego, perda de competitividade e outras tragédias. A redução não produziu nada disso. Agora, eles vêm dizer que a jornada menor está na contramão das tendências internacionais, porque tem país às voltas com desemprego, aumento da jornada. Pois eu quero dizer que estamos indo mesmo na contramão’, provocou. ‘Na contramão ao conquistarmos uma valorização consistente para o salário mínimo, nos aumentos reais de salário, na defesa das políticas sociais, tudo contra a opinião dos conservadores. Por isso o Brasil vem dando um exemplo ao mundo de como superar a crise internacional com geração de empregos e aumento no consumo, puxado pela renda’.



Boas notícias
 O presidente do Sindicato dos Químicos do ABC, Paulo Lage, ao falar na assembléia em Diadema, em frente à fábrica da TRW, anunciou que na próxima segunda-feira os trabalhadores da Basf de São Bernardo vão votar acordo que prevê uma jornada de 36 horas.  ‘Isso é mais uma mostra de que nossa luta vale a pena. Mas apesar de algumas categorias conseguirem acordos como esse, temos de garantir a mudança constitucional. Só assim deixaremos de estar à mercê dos patrões e da conjuntura econômica’, afirmou.



Sérgio Nobre também tinha uma boa notícia. Segundo ele, a gráfica que roda a ‘Tribuna Metalúrgica’, jornal do sindicato, ainda adotava a jornada de 44 horas, cumprindo convenção coletiva do sindicato dos gráficos. ‘Os trabalhadores vieram me cobrar. Pois bem, amanhã estamos assinando acordo da redução da jornada e vamos contratar mais dois trabalhadores, que vão se juntar aos 11 que já estão lá’, anunciou. No sindicato, os trabalhadores já fazem 40 horas.
O bancário Vagner Freitas, secretário de Finanças da CUT Nacional, esteve presente. ‘Ainda há trabalhadores em busca de uma organização tão consistente quanto a dos metalúrgicos do ABC. O patronato brasileiro, que só quer explorar nossa classe, se aproveita disso. E esse Congresso Nacional conservador, que reflete o empresariado, emperra os avanços. Por isso essa mobilização de hoje é tão significativa’, disse.



‘Se dependermos só da maioria dos deputados, a redução da jornada não passaria. Por isso temos levado essa bandeira para as ruas, para forçar e pressionar a mesa diretora do Congresso a encaminhar o projeto para votação’, afirmou Carlos Grana, presidente da Confederação Nacional dos Metalúrgicos.  Tal pressão deve ser exercida também na próxima quinta-feira, 20, quando o presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP), fará uma visita ao Sindicato dos Metalúrgicos do ABC.



O deputado federal Vicentinho (PT-SP), afirmou à assembleia diante da TRW que fará discurso em plenário ainda hoje, em Brasília, para mais uma vez cobrar a aprovação da PEC 231/95, do qual é relator. A PEC, além de reduzir a jornada, aumenta para 75% a remuneração da horas extras, como forma de limitá-las. ‘A gente se esgoela, a gente se esforça’, relatou Vicentinho, ‘mas às vezes naquele Congresso parece que eles acham que a gente não representa ninguém. Os danados dos empresários e seus representantes só querem ganhar, ganhar, e se recusam a investir no que há de melhor em qualquer empresa: os trabalhadores e trabalhadoras’, disse. ‘Tem deputado que tá em cima do muro. Fiquem de olho’.



Artur Henrique também destacou a importância de caprichar no voto este ano: ‘Se tivéssemos mais parlamentares comprometidas com a classe trabalhadora, não teríamos tantas dificuldades para aprovar projetos de mudança’.


 Em defesa da reduçãoEles aprovam – Tatiane Aparecida de Oliveira, 27 anos, trabalha no setor de pintura de chassis de ônibus da Mercedes e disse o melhor das 40 horas é poder curtir seu filho de dois anos de idade. ‘Se fosse com 44 horas e mais extras, eu sairia daqui à noite’, contou Tatiane, que trabalha das 6h às 15h.



Valdemir Sena, 48 anos, trabalha há cinco na usinagem da mesma empresa, e diz que sua vida mudou muito desde que saiu da emprego anterior. ‘Era pauleira. Tinha as 44 horas e mais duas extras todo o dia, e no sábado era das 7 da manhã às quatro da tarde. Hoje eu tenho um novo horizonte, consigo planejar  e ter uma perspectiva de futuro. Levo meus três filhos para a escola, acompanho os estudos deles’, contou. ‘Minha filha mais velha está fazendo Senai, e eu descobri essa possibilidade  pra ela depois que entrei aqui’.


(Isaías Dalle)   

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