Para especialistas, classe média aumentou, mas desigualdade ainda é grande

18 outubro 18:18 2010

A ascensão econômica de 30 milhões de brasileiros à classe C desde 2001 não é efeito de uma política redistributiva deliberada, mas resultado de uma política que afeta positivamente mais os pobres que os ricos, afirma a economista Sônia Rocha, segundo informações da Agência Brasil.


Para Sônia, são os mais pobres, as pessoas que ganham em torno de um salário mínimo, que estão ganhando mais com programas de transferência de renda, como o Bolsa Família, e outras políticas distributivas de ganho real do salário mínimo. “Todos estão ganhando, mas as pessoas mais qualificadas que recebem mais estão se beneficiando relativamente menos, quer dizer, o ganho delas é menor proporcionalmente ao que elas ganhavam antes”, declarou a especialista.


A pesquisadora do IETS (Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade) acrescentou que o fenômeno é uma “evolução desejada”, pois o cenário é diferente do que ocorreu no chamado milagre brasileiro, entre 1969 e 1973, quando houve crescimento de renda para todos “mas as pessoas mais qualificadas ganhavam mais”, resultando em “aumento brutal da desigualdade”.


Abismo


Já na opinião do professor de sociologia da UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora), Jessé Souza, há “muita celebração” sobre o suposto ingresso de brasileiros na classe média e isso, no entanto, é baseado no que classifica como “fetiche [fantasia] do número”. Para ele, há “pouco cuidado científico e certa cegueira em relação ao continuado sofrimento e abandono que ainda marca o cotidiano de porção considerável da população brasileira”.


O pesquisador reconhece o “extraordinário impacto social, econômico e político” do Programa Bolsa Família e atesta como importante as melhorias verificadas na última Pnad (Pesquisa Nacional de Amostra Domiciliar 2009), tais como o aumento da formalização do trabalho, da renda média, da taxa de escolaridade e da queda do trabalho infantil.
Esses indicadores, para Souza, revelam que “a pobreza absoluta diminuiu”, mas a desigualdade “é um conceito relacional e diz respeito à distância – no nosso caso abismo – entre as diversas classes que disputam recursos escassos em uma sociedade”. Segundo Jessé Souza, essa porção corresponde a mais de 30% da população e “tem inserção precária tanto no mercado quanto na esfera pública”.


Essas pessoas costumam ser percebidas, por exemplo, quando a sociedade se choca com a violência e a criminalidade, trata dos problemas do transporte e da saúde pública, ou toma conhecimento sobre a repetência escolar e a desqualificação da mão de obra. Na avaliação de Souza, essas pessoas vivem como “subgente” ou “ralé”, pois são “a mão de obra barata a serviço das classes média e alta”.

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