A política de recursos desumanos da CPFL

25 novembro 15:00 2010

Insistindo na terceirização ilegal e fraudulenta do Call Center, faz quase vinte dias que a empresa afronta decisão judicial e não cumpre liminar que impede a demissão de 135 teleatendentes


Faz quase vinte dias que a direção da CPFL Energia deixa de cumprir a liminar que impede a demissão de 135 trabalhadores do Call Center da empresa, com sede em Campinas, conquista do Sinergia CUT para garantir emprego decente, mantendo postos de trabalho do quadro próprio, e para combater a terceirização ilegal de uma atividade fim que afetará inclusive a qualidade dos serviços prestados aos consumidores.


Concedida pela juíza Rita de Cássia Scangliusi do Carmo, da 10ª Vara do Trabalho de Campinas, no último dia 05, a liminar determina que todas as empresas da holding “se abstenham de consumar dispensas ou transferências de empregados em razão da chamada reestruturação do seu Call Center e da centralização do teleatendimento nas cidades em que se localize a CPFL Atende, incluindo as dispensas já comunicadas em 04/11/2010, até julgamento final”. A empresa recorreu da decisão mas não conseguiu cassar a liminar.


Apesar de notificada imediatamente, a direção da CPFL vem ignorando tanto a decisão judicial como os 135 trabalhadores que haviam sido comunicados das demissões na véspera. “A atitude da empresa é inaceitável, desumana, aintiética e fraudulenta, pois desrespeita principalmente o direito humano ao trabalho de pais e mães de família”, afirma o Sinergia CUT. “Pior, a empresa deu início agora a uma guerra de nervos, cortando benefícios e até o convênio médico com a Fundação CESP”, denuncia a entidade.


Prática ilegal
Para a direção do Sinergia CUT, a prática da CPFL é ilegal e provoca também a queda da qualidade do atendimento à população. “É uma tentativa fraudulenta de burlar a legislação, o contrato de concessão, várias decisões judiciais, a CLT e até a Constituição Federal. A obsessão pelo lucro faz com que a CPFL jogue na rua centenas de trabalhadores qualificados e com direitos garantidos, inclusive por Acordo Coletivo de Trabalho que prevê salário inicial de R$ 1.170, enquanto o piso salarial de um atendente da CPFL Atende é de R$ 600”, alertam os sindicalistas.


Por tudo isso, o Sinergia CUT vai às últimas conseqüências para garantir o emprego dos trabalhadores e a qualidade do atendimento à população. “Vamos buscar a legalidade para garantir que a atividade fim continua a ser responsabilidade do quadro casino online de pessoal próprio. Aliás, legalidade que uma concessionária de serviço público deveria respeitar desde sempre”.     



Batalha antiga
A batalha para impedir a terceirização do Call Center é antiga. Começou em 1999, dois anos depois da privatização da distribuidora, com a tentativa frustrada de terceirizar a atividade, depois da primeira liminar judicial conquistada pelo Sindicato, reconhecendo que teleatendimento é atividade fim e que, portanto, só deve funcionar com quadro de pessoal próprio. Depois de várias outras tentativas em vão, a CPFL aceita assinar com o Sindicato um Acordo homologado judicialmente, garantindo o Call Center centralizado em Campinas e com atendimento exclusivo por trabalhadores do quadro próprio.


Dez anos depois, em 2009, a CPFL dá início a uma nova estratégia de terceirização do Call Center para burlar o acordo judicial e a legislação vigente. Cria então a CPFL Atende, empresa terceirizada, sediada em Ourinhos e Araraquara, com outro CNPJ e com a única finalidade de prestação de serviço telefônico aos consumidores da CPFL Energia. Até o início deste ano, a empresa reduziu o quadro de pessoal do Call Center da sede de 350 para 240 trabalhadores. Mas o clima de tensão e estresse entre os trabalhadores de Campinas ficou pior mais recentemente, quando a holding informou que fecharia o Call Center e anunciou a demissão de todos.


“Guerra de nervos”
Dois atos de protesto em frente à sede da CPFL Energia contra as demissões não sensibilizaram a direção da empresa. Duas correspondências encaminhadas pelo Sinergia CUT cobrando o cumprimento da decisão judicial também não surtiram efeito até agora. Ao contrário, ficaram sem resposta. “A empresa está apostando em uma guerra de nervos, em pleno final de ano”, reafirma o Sinergia CUT.


Os trabalhadores que lotaram o auditório do Sindicato para mais uma reunião, na tarde desta terça-feira (23), reforçaram as expressões de tristeza e indignação pelo tratamento desumano depois dos vários anos de dedicação à empresa. Apesar de ter pago o adiantamento salarial, a CPFL cortou benefícios como vale refeição, vale alimentação, auxílio creche e até o plano médico. Tem gente que já tinha consultas e exames médicos agendados. Tem gente que não sabe como pagar empréstimos pessoais junto à Fundação CESP, que já foi comunicada pela empresa das demissões ilegais.


Sério, pensativo e compenetrado durante as mais de duas horas de reunião, o psicopedagogo Osvaldo Marinho Mota, 39 anos, casado, tem 24 anos de empresa e trabalha no Call Center há dez. O rosto de preocupação chama a atenção e não esconde um desabafo: “Preocupar é um ato de todo ser humano que busca um futuro. Estou sempre preocupado com meus sonhos. Hoje tenho família e isso fala muito forte em minha vida. Penso no futuro, por exemplo, de minha filha de cinco anos e o que posso dar a ela para que não venha a passar pelo que passo hoje. O corporativismo destrói os sonhos das pessoas. É o que sinto hoje”.

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