Fundos: Acordo abre caminho para superelétrica

28 fevereiro 10:45 2011 Folha de S.Paulo

Com aval do governo, Camargo Corrêa acertou com a Previ e o Banco do Brasil fusão da Neoenergia com a CPFL. Para fechar o
contrato, ainda é preciso dobrar a resistência da Iberdrola, que reluta em aceitar o comando da Camargo

A construtora Camargo Corrêa chegou a um acordo com a Previ e o Banco do Brasil para fundir a CPFL com a Neoenergia, o que representa o primeiro passo concreto para a formação da superelétrica nacional na área de distribuição de energia.

Os termos da união entre as duas empresas só não foram concluídos porque a espanhola Iberdrola, acionista e operadora da Neoenergia, não aceitou que a empreiteira consolide sob o seu comando a cadeia de controle da nova companhia. A construtora dirige a CPFL.

Entre o final do ano passado e janeiro deste ano, as quatro partes tiveram três reuniões. Diante do impasse com os espanhóis, ficou acertado um encontro nas próximas semanas para que tanto a Camargo Corrêa quanto a Iberdrola apresentem novas condições para tentar chegar a um acordo.

Juntas, Neoenergia e CPFL atendem a mais de 15 milhões de unidades consumidoras (cerca de um quarto de todo o mercado do país por esse critério), atingindo mais de 1.300 municípios em sete Estados, fora empreendimentos em geração.

Com o aval do Planalto, a Previ (fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil) e o BB já fecharam apoio à construtora.
O modelo será a troca de ações entre a Neoenergia e a CPFL -sob a qual deverá ser consolidada toda a operação (uma vez contornado o problema com os espanhóis).

Na Neoenergia, a Previ tem 49% de todo o capital, fora 12% do Banco do Brasil de Investimentos. Na CPFL, o fundo de pensão dos funcionários do banco tem 31% do capital votante. Previ e BB aceitaram ser sócios capitalistas da nova empresa.

Conforme a Folha antecipou em janeiro do ano passado, o governo Lula apoiou os planos da Camargo Corrêa de se tornar a maior distribuidora de energia do país. A presidente Dilma Rousseff manteve o projeto.

A união da CPFL com a Neoenergia seria a primeira etapa. Num segundo momento, o BNDES financiaria a nova companhia a comprar outra distribuidora, provavelmente a AES, que opera em SP e no RS. Até meados do ano passado, a Iberdrola não era um problema para a fusão das empresas.

Com a crise financeira internacional, os espanhóis passaram o ano de 2009 descapitalizados. No final de 2010, aparentemente se recuperaram.

Pelo acordo de acionistas da Neoenergia, a Iberdrola tem a preferência na compra da participação da Previ e do BB. Antes de trocar ações com a CPFL, o fundo de pensão e o banco teriam que oferecer seus papéis aos espanhóis.

Na última reunião entre as partes, realizada no mês passado, os executivos da Iberdrola disseram que, se a Camargo Corrêa insistisse no formato de assumir sozinha o comando da nova companhia, eles exerceriam a cláusula de preferência, inviabilizando a fusão.

Concentração é tendência na distribuição de energia

A temporada de fusões e aquisições entre as companhias elétricas está aberta e deve durar até o segundo trimestre, quando está prevista uma nova revisão tarifária pela Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica).

É o que explica a onda de negociações em curso entre as distribuidoras de energia. A Aneel irá obrigá-las a aumentar o repasse de seus ganhos de eficiência às tarifas, reduzindo o preço final.

Resultado: pressão sobre as margens de lucro, que ficarão menores. Segundo as distribuidoras, as margens já vinham sendo reduzidas após revisões tarifárias ocorridas anteriormente.

Diante desse cenário, não resta outra alternativa para as empresas a não ser ficar maiores por meio de fusões ou aquisições. Dessa forma, as elétricas acreditam ser possível cortar custos e obter ganhos de escala. Ainda que as margens fiquem menores, com maior volume de receita será possível garantir retornos satisfatórios aos acionistas.

No Brasil, esse movimento segue liderado pela CPFL -que tem a construtora Camargo Corrêa como sócia- e pela Cemig, que tem a Andrade Gutierrez como um dos principais acionistas.

Ambas estão envolvidas em negociações que, se concluídas, levarão a uma concentração de 42% do mercado de distribuição no país.

Um acordo entre a CPFL e a Neoenergia já era esperado e se acelerou após a compra da Elektro pelos espanhóis da Iberdrola, em janeiro.

A Elektro também interessava à CPFL por atuar no interior paulista em área contígua, um dos critérios adotados pelas distribuidoras na hora de escolher potenciais alvos. Proximidade geográfica das linhas de transmissão traz sinergias na operação (economias de custo).

A Cemig planeja construir um “cinturão” no Sudeste e distribuir mais energia do que produz Itaipu Binacional, caso consiga comprar a Bandeirantes e a Escelsa, que pertencem aos portugueses da EDP, e a Ampla e a Coelce, controladas pelos espanhóis da Endesa.

Embora neguem que os ativos estejam à venda, EDP e Endesa enfrentam uma situação complicada.

Existe uma pressão dos governos desses países por atrair recursos aos cofres públicos para que possam cumprir as metas da União Europeia. A venda de suas empresas pode ajudar, e isso favoreceria a Cemig a fechar negócio.

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