Em ato unificado na capital paulista, trabalhadores apontam que não falta dinheiro, mas responsabilidade aos empresários

Em ato unificado na capital paulista, trabalhadores apontam que não falta dinheiro, mas responsabilidade aos empresários
21 setembro 08:42 2012 CUT Nacional

Vamos transformar a luta das categorias em luta de classes, afirma presidente da CUT

Desde as primeiras horas da manhã desta quinta-feira (20), cerca de dois mil trabalhadores ocuparam a Avenida Paulista, principal centro econômico do país, para um ato unificado convocado pela CUT e com a participação de representantes de outras centrais sindicais.

A manifestação diante de umas agências do Bradesco reuniu categorias em campanha salarial neste segundo semestre. Lideranças dos bancários, metalúrgicos, petroleiros, e funcionários dos Correios foram unânimes em destacar que não faltam recursos, mas comprometimento dos patrões para oferecer condições dignas de trabalho.

Presidente da CUT, Vagner Freitas, destacou que esse foi o primeiro de diversos atos que marcarão a unidade do movimento sindical pela distribuição dos lucros.

“O inimigo é o patrão e as centrais tem que estar fortes neste sentido. Hoje começamos a transformar a luta das categorias em luta de classes”, definiu.

O dirigente alertou ainda que o aumento salarial é um dos pilares para o Brasil sair da crise e que a Central cobrará do governo contrapartidas sociais diante das isenções e desonerações tributárias oferecidas aos empresários.

“A isenção de impostos deve servir para manter o nível de emprego e melhorar as condições de trabalho e não para aumentar o lucro do empresário. No Brasil, a participação do salário no PIB (Produto Interno Bruto) é muito menor do que em outros países”, destacou Vagner.

Ao final, o presidente da CUT alertou a classe trabalhadora para que esteja atenta às eleições municipais e acompanhe de perto a forma como o julgamento do ‘mensalão’ tem sido tratado pela velha mídia. Para ele, uma oportunidade que a imprensa golpista encontrou para atacar o PT e o ex-presidente Lula.

“Continuaremos apontando os equívocos como sempre fizemos. Prova disso é que nos governos de Lula e Dilma fizemos mais greves do que em qualquer outro. Acreditamos que o governo atende mais as reivindicações dos empresários do que dos trabalhadores, mas temos lado e vamos sempre defender aqueles que são mais salutares à classe trabalhadora”, decretou.

De olho nos patrões

Segundo dados do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), dos 370 reajustes analisados no primeiro semestre deste ano, 96,5% tiveram aumento acima da inflação, 3% apresentaram índice igual à inflação e 0,5% abaixo.

No segundo semestre, porém, os patrões têm dificultado as negociações. Secretário de Finanças da CUT, Quintino Severo, também citou em seu discurso a importância da mobilização para ampliar as conquistas.

“Temos consciência de que a melhor saída para combater os impactos negativos da crise é valorizando os salários, gerando empregos e garantindo os direitos da classe trabalhadora”, disse.

Secretária Geral Adjunta da CUT, Maria Faria destacou que a greve é fundamental para ampliar direitos de todos os trabalhadores.

“ A greve é, sim, um instrumento para melhorar a vida dos trabalhadores, mas serve também para melhorar o desenvolvimento do país. Não é uma luta exclusiva de uma categoria, mas de um conjunto de atores que querem um país mais justo, solidário, com distribuição de renda e desenvolvimento social, que valorize os aposentados e respeite os jovens e crianças.“

Bancários – a greve dos bancários chegou nesta quinta-feira (20) ao seu terceiro dia, com cerca de 8 mil agências paralisadas em todo o país. Na Avenida Paulista, o Sindicato dos Bancários de São Paulo ocupou nesta manhã todos os bancos da região, com os trabalhadores se somando as categorias presentes ao ato unificado para cobrar da Fenaban uma proposta decente que contemple todas as reivindicações da categoria, entre elas 5% de aumento real.

A pauta de reivindicações foi entregue à Federação dos Bancos no dia 1º de agosto. O patronato apresentou uma única proposta no dia 28 com um índice irrisório de 0,58% de aumento real. “É inadmissível que o setor que obtém os maiores lucros, que utiliza as maiores taxas de juros e outros artifícios para engordar seus ganhos, apresente uma proposta de 0,58% de aumento real para os trabalhadores, ao mesmo tempo que remunera em 9,7% os seus executivos”, repudiou Carlos Cordeiro, presidente da Contraf-CUT (Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro).

A Contraf encaminhou cartas à Fenaban e aos bancos no dia 5 para reafirmar sua disposição em negociar, mas sem resposta, a alternativa foi o iniciar uma greve nacional por tempo indeterminado.

A presidenta do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Juvandia Moreira Leite, passou durante o ato algumas informações que comprovam a ganância dos banqueiros. As seis maiores instituições financeiras lucraram R$25 bilhões somente no primeiro semestre. O HSBC (banco inglês) e o Santander (banco espanhol) cobram 7% de juros na Europa, enquanto que no Brasil cobram um valor 10 vezes maior. Sem contar que o Brasil possui o maior spread bancário (diferença entre o que o banco paga para captar dinheiro de investidores e o que cobra de juros dos tomadores de empréstimos).

“Nada mais justo do que divisão dos lucros com quem ajuda a construir toda essa riqueza. Há executivos no Itaú que ganharam R$ 8 milhões, enquanto o piso do bancário é de R$ 1.400. E mesmo assim os banqueiros mantém a postura intransigente. A única forma de dobrá-los é com a greve”, declarou.

Além da questão econômica, incluindo um reajuste acima da inflação, valorização do piso salarial e PLR maior, os bancários querem também mais empregos e fim da rotatividade, fim das metas abusivas e do assédio moral, mais segurança nas agências e igualdade de oportunidades.
 
 Metalúrgicos – os metalúrgicos da base da FEM-CUT/SP em todo o estado de São Paulo (ABC, Cajamar, Itu, Salto, Sorocaba, São Carlos, Taubaté e Sorocaba) iniciaram na semana passada greves, paralisações de advertências e atrasos nos turnos nas empresas onde o setor patronal ainda não avançou na proposta de reajuste salarial de 8%.

Presente ao ato unificado, Valmir Marques, o Biro Biro, presidente da FEM, reiterou que a categoria fortalecerá os atos e paralisações nas próximas semanas. “Só a nossa organização e unidade para quebrar a resistência do setor patronal”, exalta.

Para o presidente da Confederação Nacional dos Metalúrgicos (CNM), Paulo Cayres, o governo tem feito a sua parte, ao diminuir os impostos. E apontou que agora cabe às categorias pressionar os patrões para que não transformem esse benefício em concentração de renda.

“Crescer não é errado, errado é não dividir. Os empresários já receberam mais de R$ 1 bilhão em isenções. Só de IPI (Imposto Sobre Produtos Industrializados) foram R$ 800 milhões”, citou.

Petroleiros – com data base em setembro, os petroleiros intensificaram nesta semana suas mobilizações, após recusa da Petrobrás em atender as reivindicações da categoria. A empresa propôs à categoria 6,5% de reajuste salarial, o que representa ganho real entre 0,9% e 1,2%, dependendo do nível salarial da cada trabalhador.  Os petroleiros reivindicam 10% de ganho real.

Reunidos em frente à sede da Petrobras na Avenida Paulista na manhã desta quinta (20), os petroleiros repudiaram a proposta apresentada pela empresa e reafirmaram sua disposição de luta.

“Se nos curvarmos, a crise vai aumentar e chegar aqui. A saída é fortalecer o mercado interno e isso não acontecerá se aceitarmos propostas vergonhosas como a da Petrobrás, que ofereceu entre 0,9% a 1,2% de ganho real”, afirmou João Moraes, coordenador reral da Federação Única dos Petroleiros (FUP).

O dirigente aproveitou para convocar os trabalhadores a integrarem uma grande mobilização que a Federação promoverá no dia 17 de outubro, no Ministério do Planejamento. No próximo dia 26, os petroleiros também farão uma paralisação de 24 horas como forma de advertência.

Químicos – A categoria química no estado de São Paulo dará a largada na campanha salarial nesta sexta (21) com assembleias em todo o Estado para a aprovação da pauta de reivindicações. O calendário inclui ainda a apresentação da pauta ao setor patronal na próxima semana e o início das negociações no começo de outubro.

“Reivindicamos 12% de reajuste salarial, piso de R$ 1.400,00, redução da jornada de trabalho, entre outros pontos. Se as nossas reivindicações não forem atendidas pelo setor patronal, vamos fazer igual aos companheiros e companheiras que estão em greve por aumento real e melhores condições de trabalho”, afirmou Carlos Eduardo de Brito, o Carioca, dirigente do Sindicato dos Químicos de São Paulo.

Trabalhadores nos Correios – Como no ano passado, a direção dos Correios abandonou o processo de negociação, apostando na judicialização da greve dos trabalhadores, iniciada nesta semana em 23 regiões do país.

A categoria reivindica um aumento de 43,7% e R$ 200 linear, ticket de R$ 35, a contratação imediata de 30 mil trabalhadores, o fim das terceirizações, além de outros pontos para garantia de melhores condições de trabalho.

Aeroviários, aeronautas e vidreiros – No dia 28 de setembro, os trabalhadores aeroviários e aeronautas entregarão sua pauta de reivindicações ao setor patronal. “Expectativa é de uma campanha muita dura e difícil, mas faremos todos os esforços para que as demandas da categoria sejam atendidas. Se for preciso, vamos à greve”, enfatizou Celso Klafke, presidente da Fentac/CUT (Federação Nacional dos Trabalhadores na Aviação Civil).

Com data-base em dezembro, os vidreiros de São Paulo estão discutindo ainda a sua pauta de reivindicações. José Fernando da Silva, o Cabeção, dirigente do Sindicato que representa a categoria,adianta que uma das demandas da categoria é a mudança do mês da data-base.

(Luiz Carvalho e William Pedreira)

  Categorias: