Lula: a contribuição da CUT para o desenvolvimento e redução das desigualdades é inestimável

Lula: a contribuição da CUT para o desenvolvimento e redução das desigualdades é inestimável
29 agosto 15:56 2013 Luis Inácio Lula da Silva

“Jovens devem saber que essa história não começou ontem e que somos capazes de transformar a realidade.”

Quero começar prestando homenagem aos que lutaram, ao longo da História, pela emancipação da classe trabalhadora no Brasil. Quero homenagear os que lutaram nos quilombos e nas campanhas abolicionistas; os imigrantes que trouxeram na  bagagem os ideais igualitários e organizaram entre nós as primeiras associações e sindicatos de trabalhadores. Quero honrar  a memória dos companheiros que fizeram as greves pioneiras de 1917, a greve geral de 1953 e as grandes jornadas de operários e camponeses na luta pelas reformas de base, no começo da década de 1960.

Honramos também os companheiros que deram a vida na resistência à ditadura, e os que fizeram as greves heroicas de Contagem e Osasco em 1968. A CUT é fruto do esforço dos que não desistiram de organizar a classe trabalhadora nos momentos mais difíceis; criando comissões no chão da fábrica, fazendo reuniões nos bairros e igrejas, frequentando as assembleias, fazendo avançar os sindicatos.

Foi graças a esse esforço cotidiano de organização que os trabalhadores brasileiros surpreenderam os patrões e a ditadura, nas grandes greves de 1978, 1979 e 1980. Nós lutávamos por dignidade, contra a exploração da classe trabalhadora, pelo direito de greve e de livre organização sindical. Lutávamos por liberdade e democracia. E fazíamos avançar a consciência política dos trabalhadores, até mesmo quando nossas greves eram derrotadas, como ocorreu em 1980.

Naquele ano ficou claro que os trabalhadores precisavam também ter sua própria representação política, e foi quando criamos o PT. O PT somou-se a outras forças políticas e sociais na luta pela redemocratização do país: os militantes comunistas, o PDT de Leonel Brizola, o PMDB do doutor Ulysses, o PSB, as comunidades de base da Igreja, os companheiros que vinham do exílio e organizações como a OAB e a ABI.

Foi um dos momentos mais ricos da nossa história, porque aprendemos a combinar a luta política institucional, a disputa de eleições, com as reivindicações sindicais e a organização nos movimentos sociais. Foi também um momento de ampliação da consciência sobre os direitos das mulheres e dos negros, do reconhecimento das minorias, contra a discriminação e por responsabilidade na questão ambiental.

Nesse ambiente efervescente, realizamos a primeira Conferência Nacional da Classe Trabalhadora, a Conclat de 1981, que apontou a necessidade de criarmos uma central sindical independente, organizada e dirigida diretamente pelos trabalhadores. A CUT foi construída a partir da base, de baixo para cima, com uma representatividade inédita na história do sindicalismo brasileiro. A organização autônoma da classe trabalhadora desafiou uma proibição expressa da legislação autoritária.

A criação da CUT está, portanto, diretamente associada ao processo de redemocratização do Brasil, que resultou neste que é o mais longo período de vigência do estado de direito e das liberdades democráticas em nossa história. É muito importante que os mais jovens conheçam essa trajetória, para compreender que a história não começou ontem, e que somos capazes de transformar a realidade.

Companheiros e companheiras

A contribuição da CUT para o desenvolvimento e para a redução das desigualdades no Brasil é inestimável. A CUT fortaleceu os sindicatos nas negociações com as empresas e com os governos, e participou efetivamente dos principais movimentos que levaram o Brasil a ser hoje um país maior, mais democrático e mais justo.

A CUT esteve nas ruas, no movimento pelas Diretas, e na Constituinte, defendendo os direitos sociais e a livre organização dos trabalhadores. Apoiou os movimentos sociais da cidade e do campo, levando a solidariedade dos trabalhadores a todos que clamavam por justiça. Apoiou a criação das cotas sociais e raciais no ensino e nas instituições, combateu a homofobia e a violência que atinge as mulheres.

A CUT resistiu corajosamente às tentativas de dissipar o patrimônio nacional; atuando em defesa da Petrobras e dos nossos bancos públicos. Alguns dos maiores programas sociais que temos hoje, como o Bolsa Família, o Minha Casa Minha Vida, o Fies e o novo Pronaf, não seriam possíveis se a CUT não tivesse lutado para preservar a Caixa e o Banco do Brasil.

A riqueza do pré-sal não estaria ao nosso alcance hoje, não fosse a mobilização da sociedade para salvar a Petrobras dos que desejavam fatiar e enfraquecer a empresa – para, quem sabe, privatizá-la. A CUT e a FUP tiveram um papel heroico nessa mobilização. Por fim, lembro que a CUT apoiou decididamente a eleição dos nossos governos democráticos e populares, sem abrir mão de sua autonomia. Ao longo desses dez anos, a CUT  participou,  com suas propostas, do intenso diálogo social que resultou em políticas públicas abrangentes e socialmente inclusivas.

Cito, por exemplo, a política de valorização permanente do salário mínimo, graças à qual o valor real do salário e das aposentadorias de mais de 40 milhões de brasileiros cresceu em torno de 70%. Quando chegamos ao governo, diziam que aumentar o salário mínimo ia quebrar as prefeituras e ampliar o déficit da Previdência. Ocorreu o contrário: a valorização do salário injetou bilhões na economia, dinamizando o mercado interno. Com mais salários houve mais arrecadação, contribuindo para o equilíbrio fiscal e para o desempenho da Previdência.

A criação do crédito consignado, que democratizou o acesso dos trabalhadores e aposentados aos empréstimos bancários, foi proposta por um ex-presidente da CUT, o companheiro Luiz Marinho. O Brasil era um país que praticava uma estranha forma de capitalismo, não apenas avesso ao risco, mas avesso ao crédito.

Crédito para os pobres era algo fora de cogitação

Graças ao consignado e a outras medidas que adotamos nestes dez anos, o volume de crédito disponível no país passou de R$ 380 bilhões para cerca de R$ 1 trilhão e meio em dez anos. Quando os movimentos não se acomodam na agenda corporativa e se articulam com os interesses do conjunto da sociedade, eles se tornam imprescindíveis. Neste sentido, a CUT manteve o espírito inovador e a ousadia que inspiraram sua criação, 30 anos atrás.

Companheiros e companheiras,

Nós aprendemos que um sindicato combativo não pode se acomodar. Não pode se satisfazer com um bom acordo salarial e fechar as portas pelo resto do ano, porque a vida do trabalhador não se resume ao emprego e ao salário.

As pessoas pegam o ônibus, o metrô ou enfrentam o trânsito caótico todos os dias, não apenas nos meses da campanha salarial e do reajuste. Os trabalhadores e suas famílias precisam de acompanhamento médico regular. Os jovens e os filhos dos trabalhadores têm direito a uma educação de qualidade o ano inteiro desde a creche até a pós-graduação.

A segurança alimentar, o equilíbrio ambiental, a criação e manutenção da infraestrutura, da logística, o incentivo ao investimento, a política fiscal e monetária, o controle da inflação – todas essas questões afetam o cotidiano dos trabalhadores e devem estar na agenda de uma grande central sindical.

A sociedade brasileira não espera menos da CUT do que uma contribuição democrática e qualificada para enfrentar os novos desafios do país.

Companheiros e companheiras,

Eu conheço bem a companheira Dilma, e por isso não me surpreendi com a firme resposta que ela apresentou às manifestações de junho. Ela apresentou propostas para a questão da mobilidade urbana, para as carências do sistema de saúde e o financiamento da educação, temas que estão na pauta das ruas e também na pauta da CUT.

O governo da companheira Dilma teve a humildade – e ao mesmo tempo a grandeza – de compreender que  as reivindicações alcançaram um novo patamar. Nesses dez anos, levamos praticamente todas as crianças para a escola e abrimos mais universidades e escolas técnicas do que qualquer outro governo. Mas a sociedade quer, com razão, um ensino de qualidade.

Nós ampliamos em 50% a rede de agentes de saúde, criamos as UPAs, a Farmácia Popular,  o Samu e o Brasil Sorridente. Mas as pessoas querem mais médicos, mais equipamentos e mais atenção nos hospitais.

Nós criamos empregos e construímos moradias para a população mais pobre, mas todos merecem transporte digno e eficiente para ir de casa ao trabalho ou à escola. A companheira Dilma também assumiu decididamente a pauta da reforma política.  Interessam aos trabalhadores todas as propostas para aprofundar a democracia, ampliar a representatividade das instituições e os mecanismos de participação popular.

Nesta pauta se inclui a democratização do acesso à informação, com a construção do marco regulatório das comunicações. A evolução desse debate não nos impede de aperfeiçoar e qualificar, imediatamente, nossas próprias formas de comunicação com a sociedade.

Companheiros e companheiras,

Não posso deixar de analisar a conjuntura econômica global, ainda marcada pelos efeitos da crise desencadeada em 2008, fruto da especulação sem controles e sem fronteiras.


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