Estudo da Fiocruz indica presença de coronavírus em canais de esgoto admin_siner 29 de abril de 2020
Estudo da Fiocruz indica presença de coronavírus em canais de esgoto
Projeto pode fornecer retrato da presença de casos positivos em determinada localidade, incluindo assintomáticos e subnotificados
Carolina Gonçalves/Agência Brasil

Falta de saneamento básico deixa populações carentes ainda mais vulneráveis à contaminação
As primeiras coletas do estudo foram realizadas no dia 15, em pontos de efluente hospitalar e rede coletora de esgotos da ex-capital fluminense. A previsão é de que, na primeira etapa do projeto, o monitoramento seja realizado durante quatro semanas, mas pode ser prorrogado.
Na primeira semana, o estudo detectou material genético do novo coronavírus em amostras de esgotos em cinco dos 12 pontos de coleta, afirma a Fiocruz em seu site. As amostras analisadas foram de troncos coletores dos bairros de Icaraí e Camboinhas (conhecido ponto turístico de Niterói).
Evidências científicas já estudadas internacionalmente, no período de disseminação da doença, indicam que o vírus Sars-Cov-2 é excretado em fezes, o que deixaria as populações carentes das cidades ainda mais vulneráveis à contaminação.
Pesquisa divulgada em março pela revista britânica The Lancet, uma das mais influentes do mundo, verificou que, de 41 dos 74 pacientes com amostras fecais positivas para o coronavírus, as amostras fecais permaneceram positivas, em média, por 27,9 dias após o início dos primeiros sintomas – ou, como observa a publicação, em média 11,2 dias a mais do que nas amostras respiratórias. Dos 41 pacientes, um deles teve amostras fecais positivas por “notavelmente” 33 dias continuamente, segundo The Lancet.
De acordo com a Fiocruz, diante das evidências, o projeto utiliza a análise de amostras de esgotos como um instrumento de vigilância, o que permitiria identificar regiões com presença de casos da doença mesmo os ainda não notificados no sistema de saúde.
“O monitoramento da circulação do novo coronavírus durante a epidemia subsidiará informações para a vigilância em saúde, permitindo otimizar o uso dos recursos disponíveis e fortalecer medidas de profilaxia na área”, afirma a pesquisadora Marize Pereira Miagostovich, chefe do Laboratório de Virologia Comparada e Ambiental do IOC/Fiocruz e responsável pela pesquisa.
Segundo ela, a investigação sistemática da presença do material genético do vírus na rede de esgotos sanitários “pode fornecer um retrato da presença de casos positivos em determinada localidade, incluindo assintomáticos e subnotificados no sistema de saúde”.
“Este estudo confirma a importância da vigilância baseada em águas residuárias como uma abordagem promissora para entender a ocorrência do vírus em uma determinada região geográfica, assim como a inserção da virologia ambiental nas políticas públicas de saúde”, acrescenta.
Estudo da Fundação SOS Mata Atlântica divulgado em março, abrangendo 181 trechos de rios e corpos d’água, no perímetro da Mata Atlântica, mostrou que a qualidade do recurso mineral de 95% deles está comprometida, o que amplia a vulnerabilidade das populações pobres à pandemia de coronavírus no Brasil.
 
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