Especial: Como o Golpe Militar de 1964 afetou a classe trabalhadora

Especial: Como o Golpe Militar de 1964 afetou a classe trabalhadora
29 março 12:03 2019 Elias Aredes Junior

Neste domingo, dia 31, (ou segunda-feira para alguns historiadores) o Brasil relembrará o inicio de um período obscuro da vida brasileira. O golpe sobre o presidente João Goulart e a ascensão do Marechal Humberto Castelo Branco abriu um período de mortes, torturas, perseguições e censura na vida brasileira.

Um ambiente que começou tenso e ficou insuportável a partir do ato institucional Número 5, promulgado em 13 de dezembro de 1968 e que fechou o Congresso, confirmou a nomeação de governadores e fez com que políticos progressistas ou que tinham bandeiras trabalhistas fossem obrigados a arrumarem as malas e procurarem um local de refúgio. Ou seja, ao contrário do que diz o atual Presidente da República, o Golpe Militar não registrou apenas “alguns probleminhas”. Foi um período que mancha a trajetória de um país que busca a Democracia.

Regime Militar que não pode jactar-se de ter sido imune á corrupção. Uma prova cabal de tal fato foi dado pela Série de reportagens publicadas pelo jornal “O Estado de S. Paulo”, em agosto de 1976 e que mostravam uma série de mordomias e benefícios desfrutados por ministros, como concessão de cartões de créditos ilimitados e outras benesses.

Um regime de exceção que desfrutou de mordomias, sufocou a democracia e buscou eliminar os direitos e conquistas dos trabalhadores, que viam no governo trabalhista de João Goulart uma esperança de distribuição de renda e diminuição das desigualdades. Uma prova do respaldo às ideias de Jango é que, às vésperas do golpe de 1964, uma pesquisa feita pelo Ibope e que hoje está arquivada na Unicamp demonstra que o então presidente tinha 70% de aprovação em relação ao seu programa de governo. Mais: os entrevistados na época mostraram o desejo de votar nele caso a reeleição fosse permitida. Em Fortaleza, por exemplo, ele tinha 57% das intenções de voto e mesmo São Paulo, com um eleitorado mais conservador lhe concedia 40% do total.

Neste contexto, a Comissão Verdade, cujos os trabalhos foram finalizados em 2012 trouxe um apanhado da participação dos trabalhadores neste processo e como a ditadura afetou a luta por direitos. “(…)O Comando Geral dos Trabalhadores (CGT), organismo criado em 1962 para unificar e coordenar nacionalmente as lutas dos trabalhadores brasileiros, mobilizava-se, especialmente, por reivindicações como o aumento de 100% do salário mínimo, o novo rezoneamento desse salário, com

a aproximação dos níveis salariais em todo o país, a aplicação efetiva do já instituído salário-família, o direito de greve, sem as restrições legais e práticas em curso, a redução do custo de vida, as lutas camponesas e o pagamento do 13º  salário. O CGT apoiava, também, a elegibilidade para analfabetos e suboficiais das Forças Armadas e as reformas de base. Antes do golpe, o CGT – ele mesmo uma entidade não reconhecida pela estrutura sindical oficial – estava articulando uma proposta de reforma da estrutura sindical e defendia a autonomia e a liberdade dos sindicatos, o que seria discutido em seu congresso, que não chegou a ocorrer(…)”, afirmou o trecho do relatório “Violência dos Direitos Humanos dos Trabalhadores”, contido na página 57 do Relatório Temático da Comissão da Verdade.

Do outro lado, as forças econômicas já se preparavam há tempos para se aliar aos militares e componentes da elite econômica que desejavam exterminar qualquer resquício de luta. Um preâmbulo foi a greve dos 700 mil, ocorrida em São Paulo em outubro de 1963 e que recebeu oposição do então governador Ademar de Barros.

Quando o golpe foi deflagrado, o saldo para a classe trabalhadora foi devastador, de acordo com dados apresentados pelo relatório. “(…)Entre 1964 e 1970, foram efetuadas 536 intervenções sindicais – das quais 483 em sindicatos, 49 em federações e em quatro confederações.  Do total de intervenções realizadas pelo Ministério do Trabalho durante esse período, 19% foram efetuadas em 1964 e 61% em 1965 (80,6% do total), isto é, uma marca de 433 intervenções em apenas dois anos, aliada à cassação de 63 dirigentes sindicais, à intervenção em quatro confederações e 45 federações, de acordo com levantamento realizado por Celso Frederico.Os sindicatos maiores e politicamente mais ativos foram os mais afetados (…)”

O relatório conta ainda que sofreram intervenção cerca de 70% dos sindicatos com cinco mil filiados  e que 536 entidades foram atingidas entre 1964 e 1970. No total, dez mil o número de dirigentes sindicais foram cassados. As regiões mais prejudicadas foram o Nordeste, com 42%, e o Sudeste, com 39,55%. Quanto aos estados, os mais prejudicados foram Pernambuco, com 23,25%.

Este sufoco imposto à classe trabalhadora só começou a desanuviar a partir de 1975, quando o então Sindicato dos Metalurgicos do ABC, sob a liderança do seu presidente Luiz Inácio da Silva, o Lula, iniciou um movimento por melhores salários e condições de trabalho que desembocou posteriormente no movimento pela anistia e uma década de 1980 rica com a criação da Central Ùnica dos Trabalhadores, hoje com  7.933.029  trabalhadores(as) associados e  25.831.443 – Trabalhadores(as) na Base.

Por isso, o Sinergia CUT, filiado a uma Central com 35 anos de existência, diz com propriedade: viver em democracia é muito melhor. A Ditadura Militar não deixou qualquer saudade. Devemos é lutar para que ela não volte nunca mais.

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